Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

EDUCAÇÃO CLERICAL






A última expressão do texto anterior deu-me o mote para estas reflexões. A educação dos padres pela qual eu passei, quando estudei num colégio católico, por sete anos (antigos ginasial e científico), no interior de Minas. E escrevo este artigo sob o impacto de fato recente: um veterano ator da Rede Globo de Televisão (da minha geração, portanto) foi suspenso da emissora por assédio a uma figurinista. Caso típico de estupidez misturada com jogo de poder: o ator famoso que pensa estar acima de qualquer outro ser humano e usa esse poder para uma conquista não autorizada. Ao tentar justificar ou explicar o ato condenado pelas outras mulheres da Globo e de grande repercussão nas redes sociais, o ator famoso optou por dizer que era fruto de uma geração machista e, portanto, pedia desculpas não pelo seu ato, mas pela educação recebida.



Ora, a educação recebida por essa geração de homens (e também de mulheres), na qual me incluo, foi, sim, machista. Mas, principalmente, foi uma educação malconduzida, ou conduzida de forma equivocada, envergonhada e escamoteada, principalmente na relação com o sexo oposto ou nas relações homem-mulher, ou seja, foi uma geração que teve na educação sexual (ou digamos, melhor, na educação para a vida a dois) uma série absurda de equívocos.



Lembro-me de que os padres de meu colégio promoviam, sim, palestras de educação sexual e nos incentivavam a ler certos livros. Dessas palestras e desses livros eu só sei o que me tornei: um indivíduo travado em termos de sexo, embora muito cedo tenha me tornado ateu. Não carregava a culpa, o pecado pelo sexo que praticava. Mas carregava as travas dos equívocos que me ensinaram e foi necessário um longo e tenebroso inverno de busca para me tornar um indivíduo que encara com naturalidade o sexo e o erotismo. 



Esta foi a herança dos padres e suas palestras e seus livros: o total despreparo para o prazer, para o erotismo, para entender que sexo se pratica a dois e que deve ser igualmente prazeroso a ambos os parceiros, que a mulher também tem desejos e que esses desejos nada têm de pecaminosos ou condenáveis. Que homem e mulher são iguais, e que a compreensão dessa igualdade começa na capacidade de se entenderem, e bem, na cama, no sexo, com seres que compartilham um prazer, sem domínio de um sobre o outro. A igualdade homem e mulher só pode ser realmente respeitada quando houver respeito ao desejo e ao prazer um do outro, sendo ambos fornecedores e receptores isonômicos do desejo e do prazer. 



Quando a mulher é vista apenas como procriadora, porque a “mãe de deus” concebeu “sem pecado”, era “virgem” ao dar à luz o deus cristão, e então o culto a essa “pureza” transforma todas as mulheres em candidatas a santas e, portanto, dignas de culto, há algo que se implanta na mente do “macho”: a mulher que goza é puta. E puta no pior sentido da palavra, no sentido de que não merece respeito. Assim, o conflito entre o prazer com a “esposa santa” e a “esposa prostituta” precisa ser resolvido e a maioria dos homens consegue resolvê-lo, apresar de toda a doutrinação cristã, católica apostólica romana, da igreja e seus sacerdotes eunucos. Superar esse conflito é um dos índices de superação da barbárie pelo homem moderno. No entanto, alguns ainda conservam a velha crença machista de que “não existe mulher honesta, existe mulher mal cantada”, num jogo de palavras que leva a atitudes de desprezo em relação a praticamente todas as mulheres, excluindo, claro, sua “santa mãezinha”, intocável nos escaninhos mais escuros dos lares cristãos, a rezar o terço e a seguir missas infindáveis.



A educação cristã e equivocada de tentar transformar o menino e o jovem em “santos” e “respeitadores” através de livros piedosos e doutrinários é um tiro pela culatra, em muitos casos. Além das travas morais impostas ao sexo, há o exemplo de homens, pais, tios, primos mais velhos etc., que agem exatamente ao contrário daquilo que pregam os padres. Entre a teoria cristã e a realidade da vida, nasce mais um conflito para a geração assim educada. Portanto, se há, realmente uma geração “perdida”, no sentido de não saber o que fazer, essa não pode ser a desculpa para atitudes absurdas, já que, repito, ao mesmo tempo que o choque leva a conflitos, o mesmo choque leva a reflexões e a lições de que o mundo não funciona polarizadamente, de que é possível amenizar os estragos com o passar dos anos e com a compreensão de outras possibilidades vitais, como, mais do que o utópico “amai-vos uns aos outros”, passar a crer que a verdadeira lei de civilidade deveria ser “respeitai uns aos outros”. 



Devo confessar que não me lembrava mais dos livros que líamos quando jovens, sob a influência dos padres. Então, ao ler um capítulo de um romance de um amigo meu, dou com a informação, fornecida por um personagem ao recordar sua juventude na mesma época que a minha, de que lia, entre outras bobagens, os livros de um certo Michel Quoist. O nome pipocou na minha lembrança: sim, esse o desgraçado que inculcava, através de palavras doces e piedosas, uma enormidade de informações distorcidas sobre a vida, o sexo, o erotismo e as relações com o outro sexo. E tal autor – descubro agora, era um padre! – não só escrevia livros de “educação sexual” travestidos de “lições de vida” para os garotos, como também para as moças. Até hoje deve ser um nome a frequentar as listas de livros indicados pelos padres para os jovens e as jovens no tempo das perguntas que se fazem e que não se respondem, o tempo da curiosidade adolescente.



As bobagens edulcoradas com palavras e exemplos lindamente escolhidos e devidamente apoiados em doutrina bíblica e doutrina do Vaticano envenenam o intelecto de forma muito mais cruel do que muitas bobagens que se aprendem “na rua”, com os mais velhos, com a prática de pequenos “delitos sexuais” típicos da adolescência. Fugindo do jargão científico, nesses livros de Michel Quoist e outros, não há condenações claras, por exemplo, à masturbação, mas sutilmente se insiste de que o “pecado solitário” é “pecado” e, portanto, algo proibido e condenado pelo deus que tudo vê. Priva-se, assim, o jovem do autoconhecimento e, ao privá-lo de conhecer a si mesmo, priva-o de buscar entender o outro. Além disso, o culto “mariano” está sempre presente nesse tipo de “livro educativo”, de modo claro ou, na maioria das vezes, de forma sub-reptícia, subliminar, a corroer a mente do jovem de forma quase perene.



Então, leio que o idiota de um vereador da cidade de São Paulo, auto investido na figura de censor, visitou várias escolas municipais em busca de sinais de “doutrinação de esquerda”. Leia-se: verificar se os professores não estão apenas falando de algo relacionado a política, mas também de educação sexual para as crianças. Para esse tipo de gente, que tem na cabeça o lixo ideológico de que esquerda significa “perigo político” e “coisas sujas”, entendendo como “coisas sujas” as relacionadas à educação para vida, à educação sexual, qualquer possibilidade de desenburrecimento de nossos jovens provoca terremotos, provoca a vontade fascista da censura e do controle. Sua visão machista da vida é semelhante à do ator da Globo, assim como é semelhante à do estuprador, à do assassino de mulheres que não lhes obedecem, à do indivíduo que acha que a conquista de uma mulher é estrada de mão única e de que vale tudo para levar uma mulher a atender seus desejos. 



É claro que não acho que só a religião e, principalmente, no caso do Ocidente, a religião cristã (que no Oriente, o islamismo e o judaísmo batem na mesma tecla, em termos de machismo, obscurantismo e estupidez) seja a única culpada de tudo. Mas o deísmo – a crença em deuses absurdos – tem, sim, uma enorme parcela de culpa por toda a barbárie em que ainda está metida a humanidade, já que esses deuses todos são machistas, sanguinários, estúpidos e escravagistas. O homem só vai superar a barbárie quando se livrar desses deuses e der os primeiros passos para uma outra ética de total respeito a si mesmo, à vida e ao meio onde vive.



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