Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

quarta-feira, 8 de março de 2017

POR QUE GOSTO DE OUVIR, SEMPRE, MÚSICA CLÁSSICA



(Ceri Richards - Baroque Interlude)




Ouvir música. Principalmente instrumental. Principalmente os chamados clássicos. Para mim, algo vital, como comer, respirar. Bach, Beethoven, Brahms, Villa Lobos constituem uma espécie de quarteto afinado aos meus ouvidos, aos meus sentidos, à minha imaginação. Suas composições me empolgam.

Por quê?

É complicado explicar por que gostamos disso ou daquilo. E quando o assunto é música instrumental pura, isso se torna ainda mais complexo. Esta tentativa de explicar o meu gosto por esses compositores pode ser apenas um tipo de ilusão ou de desculpa. Mas foi a que encontrei.

Uma música me empolga quando me conta uma história – com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, claro) – que me leva, por caminhos insondáveis e inexplicáveis, ao encontro de meu ser comigo mesmo. Enleva-me e deixa-me numa espécie de nirvana ou paraíso, aqui empregados apenas como metáfora de uma sensação agradabilíssima de prazer, não o prazer físico (de um orgasmo, por exemplo), mas o prazer mental, de suspensão temporária, por laivos de tempo que podem durar segundos ou muitos minutos, da dura e torpe realidade, para um plano superior de sensações inenarráveis, quando, ao que me parece, abre-se a porta dos sonhos, dos sonhos que me embalam e me encaminham para mundos abstratos em que eu usufruo do poder de ter, por aqueles instantes, encontrado a felicidade, ou um momento muito especial de felicidade. 

Especialmente dos compositores citados – Bach, Beethoven, Brahms e Villa – recolho de certas composições, talvez da maioria, mas certamente não de todas, esses extremos momentos prazerosos. As “histórias” que suas músicas me contam – e que pertencem somente a mim; que cada um construa seu próprio repertório de contos, é essa a regra – apontam caminhos desconhecidos dentro de mim e ajudam a formatar o meu lado humano, aquele “demasiado humano” de Nietzsche, ou seja, cumprem uma espécie de destino humanizador contra os resquícios – leves ou profundos – de barbárie que todo ser humano ainda carrega dentro de si. 

É claro que isso pode acontecer, e sistematicamente acontece, com muitos outros mestres, em muitas outras ocasiões e em momentos muito especiais. Recordo dois desses momentos: o primeiro, quando ouvi a Nona Sinfonia (a inacabada) de Schubert, na Sala São Paulo, com a OESP, e o segundo, quando ouvi a Nona Sinfonia de Mahler, no Theatro Municipal, com a OSM, Orquestra Sinfônica Municipal. E digo mais: Mahler teve o condão de me contar uma longa, longuíssima “história”, de uma hora e meia, sem intervalo, num verdadeiro oceano de sons e harmonias intrigantes, instigantes e verdadeiramente apaixonantes. 

Por isso, ouvir música, sempre. Principalmente a música instrumental dos grandes mestres. Se, como digo sempre, a felicidade não existe, só existem momentos felizes, certamente muitos dos momentos felizes de minha vida tenho-os sentido em companhia da música, ouvindo música.




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