Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

sexta-feira, 24 de março de 2017

A LUCIDEZ DE UMA FEMINISTA E ANARQUISTA ANTICLERICAL






Maria Lacerda de Moura (Manhuaçu, 16 de maio de 1887 — Rio de Janeiro, 20 de março de 1945) foi uma militante anarquista brasileira que se notabilizou por seus escritos feministas.

Formou-se na Escola Normal de Barbacena e trabalhou como educadora, adotando a pedagogia de Francisco Ferrer e lecionando em Escolas Modernas. Em 1920, no Rio de Janeiro, fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que combateria a favor do sufrágio feminino. Após mudar-se para São Paulo em 1921, tornou-se ativa colaboradora da imprensa operária, publicando em jornais como A Plebe e O Combate. Entre 1928 e 1937, viveu numa comunidade agrícola autogestionária em Guararema, formada principalmente por anarquistas e desertores espanhóis, franceses e italianos da Primeira Guerra Mundial, "livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais, religiosos e sociais". A repressão política durante o governo de Getúlio Vargas forçou a comunidade a se desfazer, levando-a a fugir para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Rádio Mayrink Veiga lendo horóscopos. Fez parte da maçonaria e da Rosa Cruz, mas se distanciou desta publicamente, após saber que sua sede em Berlim havia sido cedida aos nazistas, e desautorizou seu filho adotivo a reconhecê-la, após este ter-se associado aos integralistas. Sua última conferência (O Silêncio) foi realizada no Centro Rosa Cruz, ao qual voltou a se ligar ao final de sua vida. Além de pacifista, foi também vegetariana e antivivisseccionista.

Dentre seus vários livros, destacam-se: Em torno da Educação (1918); Porque vence o porvir? (1919); A fraternidade na escola (1922); A mulher hodierna e o seu papel na sociedade (1923); A mulher é uma degenerada? (1924); Lições da Pedagogia (1925); Civilização, tronco de escravos (1931); Clero e Estado (1931); Serviço militar obrigatório para a mulher? Recuso-me… (1933); Clero e Fascismo, horda de embrutecedores (1933); Fascismo – filho dileto da Igreja e do Capital (1933).

Maria Lacerda de Moura é considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil, e certamente foi uma das poucas que observaram a condição feminina dentro da perspectiva da luta de classes. Anticlerical, escreveu numerosos artigos e livros criticando tenazmente a moral sexual burguesa, denunciando a opressão exercida sobre todas mulheres e, em especial, as das camadas mais pobres. Entre os temas eleitos pela escritora, encontram-se a educação sexual dos jovens, a virgindade, o amor livre, o direito ao prazer sexual, o divórcio, a maternidade consciente e a prostituição, assuntos considerados tabu naquela época. Seus artigos foram publicados na imprensa brasileira, uruguaia, argentina e espanhola. A autora fundou também a revista Renascença, cujo foco foi a formação intelectual e moral das mulheres.

Em seu livro "Religião do amor e da beleza", Maria Lacerda de Moura defende o amor livre. Para ela, o amor só seria livre quando as mulheres não fossem mais compelidas aos braços dos homens por estarem submetidas a constrangimentos financeiros (seja pelo casamento, pela prostituição ou pela "escravidão do salário"), nem estivesse atada a preconceitos religiosos de qualquer natureza.

De Maria Lacerda de Moura, publico um texto de seu livro Fascismo – Filho dileto da Igreja e do Capital, no qual ela traça um breve histórico do cristianismo, ou seja, da Igreja Católica Apostólica Romana, numa crítica ácida aos métodos dessa instituição para se impor em termos políticos, religiosos e financeiros:



CONSTANTINO E CLÓVIS



Quando os primeiros cristãos se perdiam em discussões ridículas, no século IV, e os conflitos apaixonados dividiam o clero, Constantino, que não era cristão, mas imperador, resolveu apaziguar os ânimos e servir-se dessa força nascente para aumentar o seu poderio.

Censurou Arius, apelou para a moderação de uns e outros e convocou o primeiro Concílio ecumênico em 325.

Constantino era maquiavélico, sanguinário e sem escrúpulos. Politico hábil, ordenou que os padres fossem transportados gratuitamente a Niceia, para o Concílio. Lá compareceram 2048 bispos - “... gente a tal ponto simples, ignorante e grosseira, mas inflada de orgulho de se ver protegida pelo Imperador – no momento em que as perseguições dioclecianas ainda estavam presentes na memória de todos.” ( Encyclopédie Anarchiste – Lorulot.)

O Imperador tratava de pôr a religião a serviço dos seus interesses.

Exclusivamente calculo politico. E a prova é que Constantino só se decidiu a receber o batismo no leito de morte, se o recebeu …

Mas, foi devido aos seus cálculos políticos que os primeiros cristãos se fortaleceram. E foi então, fundada verdadeiramente a Igreja cristã, tirada do nada, pois o Cristianismo apenas começava a discutir as hipóteses ou as teses que mais tarde deram lugar aos dogmas. Estava divido pelas dissenções, antes mesmo de ter forças básicas nas quais se apoiar para dominar.

Foi depois de Constantino que a Igreja começou a se impor.

Continuaram, entretanto, as lutas pelo poder.

“Bem entendido, é o povo, a massa dos produtores e oprimidos que sempre fez as despesas dessas competições entre bispos, papas, reis e imperadores. Os pastores se disputavam a lã, mas o rebanho era sempre tosquiado”. (Encyclopédie Anarchiste – A. Lorulot – Paris.)

Desde o século IV o Cristianismo “deu o exemplo da ferocidade doutrinaria a qual o mundo bárbaro não estava habituado”. (Idem). 

Inaugurou o seu poderio pelo terror. É a maneira de vencer pela força. Foi impiedoso para os inimigos. O próprio Constantino, para agradar aos Católicos, editou a pena de morte contra todos aqueles que possuíam escritos do heresiarca Arius. Mas, finalmente, por cálculo politico, reconciliou-se com Arius.

Foi Teodósio, sucessor de Constantino que sufocou o Arianismo e deu mais forças à Igreja.

Acompanhando o Imperador, os nobres e os ricos de Roma deram o seu apoio ao Cristianismo – vendo que os seus privilégios não eram ameaçados pela nova religião, pelo contrário, sentindo que a Igreja era um pilar mais sólido para defende-los.

Quando o Império Romano desmoronou-se, a Igreja era a única instituição social, a única força organizada verdadeiramente e que pôde resistir ao vendaval. O papa herdou o prestigio dos Césares. A Igreja lucrou portanto. E no século V elevou-se ao apogeu do poder e da sua tirania. O papado se impôs à Igreja justamente porque se colocou no lugar dos Césares destronados, aproveitando-se do seus prestigio e da obediência habitual do povo romano aos seus imperadores.

Faltando estes, o papa arrogou-se o poder dos Césares. E a Igreja centralizou para sempre o seu espirito organizador e a sua diretriz.

Assim como em Roma a Igreja se apoiou num Imperador astuto e sagaz, na Gália apoiou-se nos bárbaros. A Igreja se serve dos meios que se lhe apresentam. Clotilde era dirigida por Remi, bispo de Reims. A Igreja utilizou-se da mulher para a conversão de Clóvis. Sanguinário e cruel como Constantino, Clóvis pagava à Igreja somas fabulosas e donativos principescos – para obter absolvição para os seus crimes bárbaros.

Constantino deu poder à Igreja. Clóvis lhe legou uma fortuna imensa e domínios fabulosos.

“Para ser um bom católico é preciso ser rico. Se um bandido qualquer consegue obter muito ouro pelo roubo, pelo crime e reparte o produto de seus crimes com os representantes de Deus na terra, ganha o paraíso e pode tornar-se santo. A história está cheia de monstros de face humana que a Igreja sagrou porque eram muito ricos e muito poderosos. A história está cheia de nobres figuras humanas que a Igreja queimou ou torturou – porque eram humildes e pobres.

Se Al Capone e Lampião quiserem, os tesoureiros de Deus na terra lhes venderão uma entrada no Céu para fazerem parte da corte celestial de Deus, Nosso Senhor … E eles não envergonhariam a Santa Assembleia, ao lado de Hitler e Mussolini.

A Igreja canonizou bandidos ao pé dos quais a glória de Al Capone ou de Lampião empalideceria.” (Néblind.)

A Igreja deve a dois bandidos poderosos o seu dominismo político, social e econômico.

O luxo do clero, então tornou-se escandaloso. E as orgias, notáveis. Fundam-se os conventos e mosteiros. E daí se foi estendendo. Adaptou-se aos bárbaros costumes germânicos. Adaptou-se sempre e há de adaptar-se a todos os povos e a todos os costumes, pelos séculos dos séculos, enquanto houver terra.

Tronos, reis e príncipes, daí em diante, todos se apoiaram na Igreja para manter o seu poder e obrigar os povos à sujeição. César e Pedro fizeram a aliança eterna. Enquanto estiver de pé o Estado burguês – a Igreja ficará de pé – seja ele monarquia ou república, império ou democracia, ditadura fascista ou nazista.

A partir do século V a Igreja sentiu que podia dominar o mundo inteiro, mediu suas forças e proclamou-se a dona do universo.

Carlos Magno, Luiz XIV, todos os grandes da terra curvaram-se nessa aliança infame e voraz, para dominar e torturar.

Trono e altar – os dois poderes – o poder temporal e o espiritual – o primeiro sob o controle do segundo … É São Bernardo quem pontifica a doutrina dos dois poderes, os dois gládios … as duas espadas … de modo que as massas não tem para aonde fugir. É o governo absoluto do corpo e da alma, o supremo domínio de todos os seres humanos.

O Estado, sob o controle da Igreja e a Igreja absolutamente livre, privilegiada, porque é de origem divina …

Chegando a tal ponto, a Igreja declarava não derramar sangue: enviava os heréticos ao poder temporal para serem torturados. Matava a veneno e a fogo … Queimados na fogueira, não derramavam sangue … Os reis eram obrigados pela Igreja a jurarem solenemente exterminar os heréticos. E a Igreja aplaudia sempre.

No dia seguinte ao do massacre de S. Bartolomeu, o Papa fez tocar todos os sinos de Roma e enviou felicitações a Carlos IX, com uma medalha comemorativa.

Não há na história da humanidade despotismo algum comparável à epilepsia inquisitorial da Igreja Romana. O extermínio dos Albigenses durou 20 anos. E com que fúria a Igreja os perseguiu!

As Cruzadas constituem outra página negra e sangrenta da história do Papado.

Em 1215 o Concílio de Latrão lança as bases da Inquisição, para quebrar a heresia pela espionagem a delação. Fortificou-se o Santo Ofício com a confissão auricular instituída pelo Concílio de Latrão.

Imaginemos apenas, para uma pálida ideia do que foi e será a Inquisição se a Igreja conseguir levantar-se de novo como senhora do mundo, que, só na Espanha, Torquemada (1420-1498) e os seus colaboradores queimaram, no espaço de 18 anos, 10.220 pessoas vivas, 6.800 em efigie e aplicaram penas e torturas a 97.321 criaturas humanas!

Mas, a avides da Igreja, a ambição e o luxo dos cardeais e bispos, as vendas de privilégios, as competições e indulgências, a compra de votos na disputa da tiara, tantas discórdias e tanta cupidez diminuía o seu prestigio e aumentava as suas lutas intestinas.

Um papa em Roma e outro em Avignon se disputam o poder espiritual.

Depois, três papas a Igreja teve ao mesmo tempo.

“Mas, a Igreja não era por isso menos feroz, porquanto nesse momento precisamente foi condenado à morte o grande pensador tcheco Jean Huss, pelo Concílio de Constança (1417), onde havia sido tratado traiçoeiramente: (prometeram salvar-lhe a vida se ele viesse explicar-se … e o enviaram à fogueira. Aí está a alma da Igreja!) Depois da morte de Jean Huss, longas guerras religiosas arrebentam na Boemia, preparando o terreno ao espirito de revolta, que mais tarde há de produzir a reforma e o protestantismo” (Encyclopédie Anarchiste – Lorulot.)

É também em 1431 que a Igreja e o Rei da Inglaterra mandam queimar Joana D'Arc. A Igreja, para satisfazer ao Rei. “Sempre a soldo dos poderosos, a Igreja se associa de boa vontade a todos os crimes. Mais tarde, os ingleses, sendo vencidos, e o rei de França (Carlos VII) não querendo ser considerados como cúmplice de uma feiticeira, a Igreja concorda em a reabilitar. Depois, canonizou-a, e se serve da sua desgraçada vítima para explorar a credulidade patriótica e encher seus cofres.” (Lorulot.)

Em poucas palavras aí está a história de Joana D'Arc! … Isso é a Igreja Romana!

Vem a Renascença.

“Os papas procuram ainda impor-se aos reis. O papa Julio II (1510) emite a pretensão de dar o reino da França ao rei da Inglaterra. É derrotado no seu intento. De ora em diante, mais avisados, os papas renunciaram a esses métodos brutais; contentar-se-ão em governar os reis da maneira oculta e dissimulada.” (Lorulot)

Vem a Reforma (1517). E os vícios da Igreja, as vergonhas do clero, crimes, roubos, dissidências, tudo vem à luz do dia nas contendas entre as suas ovelhas.

O Concílio de Trento – de 1545 a 1563 – reafirmou a autoridade da Santa Sé e pôs nas mãos do clero italiano o Papado e a Igreja Romana.

O Concílio de Trento proíbe severamente a heresia e as obras dos heréticos. Esse catecismo é o que prevalece até hoje no mundo católico. 

Em 1600 é queimado Giordano Bruno (Roma). Em 1633 é preso e condenado Galileu.

Vale a pena conhecer os termos dessa condenação, esse “monumento de tolice e iniquidade”:

“Em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo! Nós todos reunidos neste lugar sob inspiração do Espirito Santo, esclarecidos pelas luzes do soberano pontífice, decidimos que nenhum fiel deve crer nem sustentar que o Sol é colocado imóvel no centro do mundo; decidimos que essa opinião falsa é absurda em teologia tanto como herética, porque é expressamente contrária às palavras da Escritura e implicaria uma acusação de ignorância para com Deus, a fonte de toda ciência e o revelador dos livros santos.

Proibimos igualmente ensinar que a terra não está colocada no centro do Universo, que ela não é imóvel e que tem um movimento diário de rotação, porque essa segunda proposição é, pelos mesmos motivos, falsa, absurda, mesmo em filosofia tanto quanto errônea em matéria de fé.”

Que dirão hoje dessa condenação os professores católicos e os jesuítas que se dedicam a estudos de astronomia?

Durante cinquenta anos a igreja vigiou, perseguiu, martirizou Galileu, submeteu-o a interrogatórios humilhantes, obrigou-o a penitências vexatórias, matou-o moralmente – porque o astrônomo descobriu que a terra se move em redor do Sol!

Quando, em princípios do século XVI, as lutas da igreja quase a aniquilam, surge Inácio de Loyola que a levanta de novo, fundando a Companhia de Jesus, graças à sua vaidade, de mundano, tendo saído ferido de um combate, no qual perdeu a elegância cavalheiresca de militar e nobre.

E foi sua mãe a autora dessa conversão, substituindo as suas leituras de cavalaria pelos livros piedosos da vida dos santos …

“Graças aos jesuítas, a dissolução da Igreja foi paralisada; a luta contra os protestantes foi organizada mais eficazmente; as disciplinas interiores do clero se reapertaram. A mentalidade dos padres não foi melhorada, longe disso, mas, tornaram-se mais prudentes, mais dissimulados. Não se assistiu mais aos excessos desbordante de um Alexandre VI (Bórgia), esse papa lúbrico, envenenador e assassino, de seus acólitos e de seus sucessores.

Não se viu mais um Leão X criar de uma só vez 36 cardeais, para encher os cofres que estavam vazios. As formas foram mais respeitadas e salvaguardaram-se as aparências.” (Enciclopédie Anarchiste – Lorulot).

André Lorulot propõe, em períodos, a seguinte classificação da história da Igreja:

“1.º O período heroico, ignorante e miserável; o dogma não está ainda definido e a clericalha não existe.

2.º O período de adaptação, depois de Constantino. O dogma é violentamente discutido entre bispos que buscam os favores do poder.

3.º Período do desabrochar. O Império ruiu. A Igreja manobra através dos séculos bárbaros; submete os príncipes acumula riquezas. Desenha-se o poder dos papas, muito limitado ainda pelos Concílios.

4.º O período do triunfo. Os Papas embriagam-se de poder, procuram derrubar os reis e dominar o mundo inteiro. Afogam em sangue e heresias.

5.º O período do gozo. A Igreja está em cio. Os festins e as orgias sucedem-se aos suplícios de livres-pensadores e heréticos.

6.º O período do jesuitismo. Instruídos pela experiência, os chefes da Igreja aprenderam a bordejar e a mentir, a ocultar as suas taras, a ferir na sombra, a agir de maneira subterrânea para dividir e dominar os povos sem se comprometer.

Esse período dura ainda hoje ...”

Mas, dos jesuítas trataremos especialmente em outro trabalho. Os seus métodos merecem mais luxo de detalhe …

Eu acrescentaria ainda um 7.º período à classificação de Lorulot:

7.º O período do fascismo e do racismo. No desespero de causa perdida, porque o século da consciência livre não mais aceita os dogmas, a Igreja, indiretamente, servindo-se dos modernos nacionalismos imperialistas, e aproveitando-se dos desvarios e da degenerescência provocada pela última guerra, subvenciona, por intermédio do capitalismo, seu aliado de todos os tempos – polpudas somas aos aventureiros ousados – para fazer renascer os Autos da Fé e a Santa Inquisição – através do braço secular do Estado burguês cristianíssimo, em plena decomposição.

Entramos agora neste período.

Até aonde irá o cinismo da Igreja Romana e até aonde irá a covardia do mundo burguês cristianizado até a medula pela educação clerical?




quarta-feira, 8 de março de 2017

POR QUE GOSTO DE OUVIR, SEMPRE, MÚSICA CLÁSSICA



(Ceri Richards - Baroque Interlude)




Ouvir música. Principalmente instrumental. Principalmente os chamados clássicos. Para mim, algo vital, como comer, respirar. Bach, Beethoven, Brahms, Villa Lobos constituem uma espécie de quarteto afinado aos meus ouvidos, aos meus sentidos, à minha imaginação. Suas composições me empolgam.

Por quê?

É complicado explicar por que gostamos disso ou daquilo. E quando o assunto é música instrumental pura, isso se torna ainda mais complexo. Esta tentativa de explicar o meu gosto por esses compositores pode ser apenas um tipo de ilusão ou de desculpa. Mas foi a que encontrei.

Uma música me empolga quando me conta uma história – com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, claro) – que me leva, por caminhos insondáveis e inexplicáveis, ao encontro de meu ser comigo mesmo. Enleva-me e deixa-me numa espécie de nirvana ou paraíso, aqui empregados apenas como metáfora de uma sensação agradabilíssima de prazer, não o prazer físico (de um orgasmo, por exemplo), mas o prazer mental, de suspensão temporária, por laivos de tempo que podem durar segundos ou muitos minutos, da dura e torpe realidade, para um plano superior de sensações inenarráveis, quando, ao que me parece, abre-se a porta dos sonhos, dos sonhos que me embalam e me encaminham para mundos abstratos em que eu usufruo do poder de ter, por aqueles instantes, encontrado a felicidade, ou um momento muito especial de felicidade. 

Especialmente dos compositores citados – Bach, Beethoven, Brahms e Villa – recolho de certas composições, talvez da maioria, mas certamente não de todas, esses extremos momentos prazerosos. As “histórias” que suas músicas me contam – e que pertencem somente a mim; que cada um construa seu próprio repertório de contos, é essa a regra – apontam caminhos desconhecidos dentro de mim e ajudam a formatar o meu lado humano, aquele “demasiado humano” de Nietzsche, ou seja, cumprem uma espécie de destino humanizador contra os resquícios – leves ou profundos – de barbárie que todo ser humano ainda carrega dentro de si. 

É claro que isso pode acontecer, e sistematicamente acontece, com muitos outros mestres, em muitas outras ocasiões e em momentos muito especiais. Recordo dois desses momentos: o primeiro, quando ouvi a Nona Sinfonia (a inacabada) de Schubert, na Sala São Paulo, com a OESP, e o segundo, quando ouvi a Nona Sinfonia de Mahler, no Theatro Municipal, com a OSM, Orquestra Sinfônica Municipal. E digo mais: Mahler teve o condão de me contar uma longa, longuíssima “história”, de uma hora e meia, sem intervalo, num verdadeiro oceano de sons e harmonias intrigantes, instigantes e verdadeiramente apaixonantes. 

Por isso, ouvir música, sempre. Principalmente a música instrumental dos grandes mestres. Se, como digo sempre, a felicidade não existe, só existem momentos felizes, certamente muitos dos momentos felizes de minha vida tenho-os sentido em companhia da música, ouvindo música.