Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

SOBRE AMORES E ÓDIOS



(Artemisia Gentileschi)




Este vai ser o texto mais pessoal que eu já escrevi, para este blog. Vou falar de amor. Sei que o assunto tem sido objeto de milhares e milhares de textos e obras, desde tratados filosóficos até obras ficcionais e poéticas. Desgastado? Nem tanto. Porque é o sentimento, ou a palavra, que parece mais constante no pensamento humano. Todo mundo pensa em amar. Todo mundo fala de amor. Todo mundo parece procurar um amor. O amor está no ar (Love is in the air, de John Paul Young), como diz a velha canção estadunidense. E mais: Love is a many splendored thing - o amor é uma coisa maravilhosa, de Andy Williams. E podíamos fazer um catálogo de milhares e milhares de canções que todos ouvem e cantam, pelo mundo afora, enaltecendo o amor, falando de amor. E poemas? Não teria fim a lista. Então, esqueçamos tudo isso e vamos àquilo que me interessa: o amor, em suas várias formas. Dentre elas, a mais comum: o amor entre dois seres humanos desconhecidos. Que se apaixonam e resolvem - por curto ou longo tempo - compartilhar suas vidas uns com os outros. O chamado amor carnal, ou algo parecido. Devo dizer, como exemplo para o raciocínio que pretendo desenvolver, que amei a várias mulheres. Não tenho como pesar e medir o amor que senti a cada uma delas, ou seja, não é possível medir a quantidade e a intensidade de amor que manifestei ou que experimentei em relação a cada uma delas. Mas, de uma coisa eu tenho certeza: o amor nunca foi igual, a cada uma dediquei um amor diferente. Repito: diferente, mas não mais intenso, não maior. Apenas diferente. Ou seja, o amor dito carnal tem maneiras diferentes de se manifestar em cada ser humano, dependendo do seu grau de maturidade, dependendo da época, dependendo do outro ser humano e de, talvez, inúmeras outras circunstâncias. Não devíamos ter palavras diferentes, para designar sentimentos tão diferentes? Porém, não temos. E jogamos todos esses sentimentos numa única expressão, num único sintagma. Amor. Mas, antes do amor dito carnal, temos o amor aos pais, aos irmãos, aos parentes, ou seja, o amor ao clã. Amamos nosso pai e amamos nossa mãe. São iguais os sentimentos? Em intensidade e quantidade, é possível que não. Mas são diferentes, muito diferentes. Àquela que nos deu à luz e nos deu o leite, sem dúvida, que se ama de forma diferente do que àquele que nos protege e nos orienta para a vida. Ou algo assim. De qualquer forma, são tipos de amor diferentes. Depois, os irmãos, se os temos: para cada um, temos um amor, também diverso, embora possa - ou não - não haver diferença de quantidade ou intensidade. Os parentes, a mesma coisa. Há um tipo de amor a cada um, dependendo do grau de proximidade, de empatia, de convivência. Devíamos ter palavras diferentes para cada um desses sentimentos amorosos, não é? Mas, não temos: jogamos todos numa mesma rubrica - amor. Amigos. Será preciso dizer que os amamos a todos, mas de forma diferente, mesmo que a quantidade e a intensidade de amor seja a mesma? E jogamos todos esses tipos de amor na mesma desgastada palavrinha. E há o amor a ídolos, como escritores, artistas, políticos, líderes etc. E formas ainda mais estranhas de amor. Se pensarmos num indivíduo como Hitler, a maioria dos seres humanos que tenham um mínimo de conhecimento de história, imediatamente o considerará um ser que, absolutamente, não deve, não pode e não foi amado. No entanto, Hitler foi, sim, amado, por sua mãe, por familiares, por amigos. E pasmem: houve um momento em que ele foi amado por todo um povo, ou, pelo menos, pela maioria de todo um povo, o alemão. E mais: apesar de todas as atrocidades que ele cometeu, há ainda seres humanos que o amam e o admiram, não só na Alemanha, mas em inúmeros outros lugares. Portanto, podemos afirmar que há, sim, milhares e milhares de tipos de amor, ainda que ficássemos só naqueles que consideramos quantitativamente e qualitativamente iguais ou semelhantes. O ser humano desenvolveu essa capacidade de empatia, muito além da necessidade de reprodução, que é a forma de amor primeira e, de alguma maneira, intensa em todos os seres que precisam se reproduzir por meio sexuado. Talvez até as plantas, se deixarmos correr nossa imaginação. E dentro desse mar infinito de amores, o ser humano ainda inventou um ser supremo que diz que se deve amá-lo acima de todas as outras coisas, acima de todos os outros seres, e ser-lhe fiel e submisso, prestando-lhe contínuas contas e homenagens, senão haverá punições severas, neste e num pretenso outro mundo. E esse deus não está sozinho: dependendo da religião ou seita professadas, ele vem acompanhado de uma horda de entidades secundárias, com denominações diversas, a exigir o mesmo empenho amoroso e as mesmas homenagens. E também dependendo da religião ou seita professadas, o deus supremo todo poderoso - tão poderoso que nem necessitaria do amor humano, mas mesmo assim o exige -, não contente com os atestados de fidelidade amorosa, exige que seus seguidores odeiem aqueles que não o amam. Esse ódio pode ser insuflado de formas sutis ou extremamente diretas. O que não importa muito para o tipo de raciocínio que estamos desenvolvendo. O que importa é que chegamos ao antípoda do amor, o ódio. Porque, dentre as formas mais sutis e mais cruéis de amor supremo ao ser supremo está o fato de que essa fidelidade amorosa não permite meio termo, ou seja, se não amo o meu vizinho, não preciso odiá-lo, mas o amor à divindade deve ser de tal grandeza, que não permite que não odeie aquele que não o ama. É claro que seres de uma certa clarividência não manifestam esse ódio, porque compreendem melhor os mecanismos não só da própria seita ou religião, mas também os mecanismos que movem as relações humanas. Ou seja, são seres que compreendem que o fato de um outro ser humano não amar o seu deus não o torna odiável. Mas os seres mais impressionáveis - que não são poucos - assim não compreendem e tornam-se indivíduos que levam ao pé da letra a fidelidade amorosa ao seu deus, que levam ao pé da letra a palavra dos iluminados profetas de sua crença, tornando-se o que chamamos de fanáticos e fundamentalistas. Esses, quando dominam uma seita, transformam-na em arma de extinção, em nome do seu deus, de todos aqueles que não seguem os seus princípios e as suas regras, às vezes regras absurdas de dominação e de segregação racial, sexual e social. Quando o objeto de amor incondicional, como o amor à divindade, exige a fidelidade de todos os seres humanos e tal consenso é, obviamente, impossível, esse amor leva ao sentimento mais profundo de necessidade de destruição do outro, que é o ódio de fundamento religioso. Eu posso odiar o meu vizinho, por uma richa qualquer, mas não necessariamente esse ódio me levará a eliminá-lo. É possível conviver com ódio ao outro, pelo menos entre seres de uma certa compreensão das relações humanas, como já dissemos acima, porque podemos cultivar algo muito mais essencial à humanidade que o ódio e, até mesmo, o próprio amor, que é o respeito. Pode-se respeitar o outro, a vida do outro, a existência do outro. Já o ódio de fundamento religioso, porque exigido pela divindade cruel, não permite que se tenha respeito ao outro: deseja sempre a sua destruição, se não a destruição física, a sua morte, que seja a sua destruição (simbólica) no fogo do inferno, ou, pelo menos, algum tipo de castigo decretado pela divindade. O ódio religioso só se aplaca com o consentimento do deus, ou com a punição decretada e cumprida por esse deus. Mas, como esse deus, muitas vezes, através da palavra profética ou de seus mandamentos, não se satisfaz apenas com a pena após a morte, atribui a seus seguidores ou a alguns de seus seguidores o poder de decidir, aqui mesmo, pela punição. Então, criam-se tribunais divinos, como foi a inquisição católica entre os séculos XV e XVIII, ou as milícias de guardiães da fé e dos seus ritos, como o fazem os perigosos e crudelíssimos taliban e, mais recentemente, os seguidores fundamentalistas de uma seita denominada "estado islâmico", que mistura crença, política e divisão de poder, nos territórios onde atua, matando milhares de pessoas, destruindo cidades e regiões de países do Oriente, sob a ordens de um profeta morto há mais de mil e quinhentos anos. Amor e ódio, no contexto deísta faz do amor o sentimento mais explosivo do ser humano. E do ódio a sua forma de matar e destruir. Portanto, o amor, esse nobre sentimento, cantado em verso e prosa, descrito e estudado por centenas de pensadores, admirado e desejado por todos, não passa, talvez, de mais uma criação humana que foi devidamente apropriada por todo tipo de desculpa para que o ser humano continue cumprindo a sua vocação milenar de derramamento de sangue. Sem perceber que esse sentimento - que consideramos como nobre - tem origem na evolução humana e não na queda do ser humano a partir da desobediência a um deus que o criou, na versão criacionista do cristianismo, aceita e inserida na mente humana, como um vírus, uma praga que precisa ser combatida e derrotada, para sempre. Só assim aprenderemos que ao ser humano não é necessário amar, indiscriminadamente, mas respeitar, respeitar a vida, a existência e a fantástica diferença que há entre cada um de nós, nessa casca de noz em que nascemos, vivemos e morremos, perdidos no espaço infinito, e que não há, absolutamente, nenhum deus a nos escravizar. Odiemos e matemos os deuses, não os seres humanos.



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