Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

domingo, 11 de outubro de 2015

ARTE "SACRA"




 (Catedral de Brasília - foto da internet, s/indicação de autoria)


Invenção suprema do ser humano, a arte já ocupou milhares de tratados, para tentar ser entendida. Por que se faz arte? Acho que nem importa mais a resposta e, portanto, a pergunta passa a ser meramente retórica. O fato é que o ser humano faz arte, necessita fazer arte, como forma de buscar transcendências que o enalteçam. Sim, que o enalteçam. Pois que a finalidade da arte é enaltecer o ser humano, torná-lo mais humano, engrandecê-lo, tanto ao fazer arte, quanto ao contemplar a arte. Temos melhor a noção do que somos capazes, quando conseguimos criar. Qualquer que seja sua expressão, a arte constrói pontes entre aquilo que somos e aquilo que queremos ser. Não há nada mais humano no ser humano do que a capacidade de buscar, através de signos, o conhecimento profundo de si mesmo, construindo mundos imaginários ou interpretando o mundo que se conhece.


Há, no entanto, um tipo de arte que não tem a finalidade de engrandecer o homem: tem a finalidade de diminuí-lo perante a divindade, diante de um deus criado para oprimi-lo. Quando o artista se coloca a serviço de um sistema de crenças deístas, quando busca expressar a pretensa vontade de deuses ou de um deus, sua capacidade criadora torna-se escrava do princípio de que o ser humano precisa ser diminuído em sua grandeza, para que o deus a que ele serve seja engrandecido. Constroem-se, então, catedrais que obrigam o ser humano a olhar para cima e ver-se apequenado diante da potência divina. A escultura narra não a grandeza do ser humano, mas sua submissão. A pintura exalta a beleza dos deuses  ou do deus. A literatura, seja em prosa ou verso, exalta sempre as qualidades do deus e trata o ser humano como aquele que precisa reverenciá-lo, para se redimir. A dança, quando executada em cerimoniais, torna homens e mulheres apenas expressões atônitas diante da supremacia divina. E a música vai à exaustão da reiteração, para esmagar qualquer possibilidade de introspecção humana que o eleve como criatura, e usa de todos os recursos sonoros para entorpecer o ser humano e torná-lo um ser não pensante, um ser asfixiado por uma pretensa fé, em busca de uma salvação pregada e mil vezes repetida, para se tornar verdade. Todos os deuses são criaturas cruéis e tristes em si mesmas, e refletem isso na arte que o ser humano realiza para exaltá-los, o que transforma a tal arte "sagrada" ou "sacra" num arremedo da grande arte humana e em algo extremamente aborrecido para quem não comunga com a fé e as crenças deístas. Por isso, exprobro, sim, a arte "sacra", como simulacro de arte, como arremedo de arte, por sua finalidade utilitária e totalitária, por sua capacidade de entorpecimento e de embrutecimento da capacidade libertadora que a arte propicia ao ser humano, a ponto de achar que essa "arte sacra" é tremendamente aborrecida, se contemplada ou absorvida como expressão de culto. Pode, até haver beleza, na tal "arte sacra", mas é uma beleza corrompida, ao escolher o apequenamento do ser humano, em vez de seu engrandecimento ou de sua busca por humanização. É, portanto, uma arte desumana e cruel, a "arte sacra", em qualquer de sua expressão. Não defendo a sua destruição, claro, porque destruir o que o ser humano construiu constitui um ato de vandalismo inútil, digno de seres inferiores, mas não defendo e não aprecio nenhum tipo de manifestação artística que tenha por princípio a metafísica do deísmo cruel e desumano. 


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