Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A MAGIA DO MUNDO




(Katsushika Hokusai -Shichiri beach, in Sagami province)



Tenho horror a todas as formas e manifestações de religiosidade, de espiritualismo, de metafísicas. Basta olhar para fora de nós mesmos, ou ao nosso redor, ou abrir a janela e contemplar o mundo, a natureza, o espaço que nos rodeia, para que percebamos que não há metafísica, não há espiritualidade, não há manifestações que não sejam naturais, concretas, motivadas por leis físicas. Nenhum ser humano, em nenhum momento da história, nesses milhares de anos e séculos de vida humana sobre a Terra, terá visto, ouvido, sentido, cheirado ou saboreado qualquer coisa que se relacione a deuses ou a um deus, a espíritos, ou tido qualquer percepção que não fosse explicável pela nossa incipiente ciência ou que ainda possa ser explicável. Somos seres concretos e vivemos num mundo concreto, de coisas concretas; por essas coisas que vemos, ouvimos, sentimos, cheiramos, saboreamos não perpassam forças espirituais, nem formas de energia que não possam ser medidas e, se algumas ainda não o foram, é só uma questão de tempo. Podemos orar, xingar ou ficar mudos, que nenhum deus ou espírito ou divindade irá acorrer ou não em nosso auxílio, diante de qualquer situação. Se, num grande desastre, algum ser humano se salva, pode ter a certeza de que para isso concorreram situações perfeitamente possíveis de acontecer, sem nenhuma interferência de qualquer divindade. Além do mais, que divindade mais sacana seria essa, a escolher dentre milhares um ou uns poucos para salvar? Por que motivo salvou-se fulano e não beltrana? Se, como dizem alguns, foi a fé, como essa divindade - que só pode ser uma grandessíssima filha da puta - conseguiu obter dados suficientes e precisos de quanta fé tem o fulano de tal, em relação aos outros milhares que pereceram, por exemplo, na ocorrência de um grande terremoto ou de uma grande enchente? Pode-se, sim, exprobrar à vontade o deus de qualquer religião, os espíritos, os chamados santos e santas, as virgens marias e toda a corja que forma o séquito desse deus sanguinário e cretino, que não haverá nenhuma retaliação, porque tudo isso é invenção da mente conturbada dos seres humanos, nascidos e criados todos esses pretensos deuses e divindades e anjos e demônios e santos e santas e profetas e quantos nomes se deem à legião espiritual da necessidade que todos temos de transferir nossos problemas e nossas desgraças para um sistema de crenças que nos absolvam de nossas imperfeições e, ainda, de quebra, nos auxiliem nos percalços da vida. Os mesmos deuses que inventaram os rios, criaram as enchentes. Por quê? Para atazanar a vida dos seres humanos? Os mesmos deuses que criaram a elegância e a beleza da corça também criaram o leão que caça, estraçalha e devora essa mesma beleza. Por quê? Para atazanar a vida das corças? Estupidez, pura estupidez a noção de um criador por trás de um mundo de leis como as que convivemos diariamente. A natureza - em que vimos beleza, há pouco, na elegância da corça - na verdade, não tem beleza ou justiça ou fealdade ou injustiça ou crueldade ou bondade. Tudo isso são categorias humanas. A natureza é apenas aquilo que é. O leão que mata, mata para comer, apenas isso. Para ele, não importa a beleza da corça ou a sabedoria de um ser humano: se tem fome, mata e come. E o ser humano não é nenhum anjo decaído de um absurdo paraíso, mas fruto de uma lenta, penosa e constante evolução. Implicando o conceito de evolução não exatamente de melhoria, mas de adaptação ao meio ambiente e o desenvolvimento de  sistemas mais complexos e mais refinados, que lhe permitam sobreviver. O ser humano somos nós e nossa história. Estamos no mundo porque adquirimos a capacidade, até hoje, de dominar certas forças da natureza e sobrepujar nossos predadores. Ganhou o nosso cérebro tal sofisticação, que nos permite criar. Ganhou o nosso corpo tal capacidade de manipular, que nos permite transformar o que nosso cérebro cria em realizações fantásticas. Mas somos produto do meio. Somos a nossa genética e nossa trajetória de luta e de sobrevivência. Não temos dentro de nós nenhuma faísca divina. Se morremos, fica apenas o que deixamos no mundo. Nada mais. A morte - de que, dentre os demais seres, somos talvez os únicos a ter noção do que seja - implica a desaparição total, o aniquilamento. Não há sobrevivência. Não há outra vida. Saber que vamos morrer é a única maldição de sermos humanos, mas não podemos escapar disso. Consolemo-nos com o fato de que os mortos são sabem que morreram. Se isso pode ser chamado de consolo. Mas, fiquemos absolutamente certos de que não há um deus ou deuses ou quaisquer outras divindades a nos esperar, para nos conduzir a qualquer tipo de paraíso, depois que fechamos os olhos pela última vez. A certeza da vida é a morte. E a morte não tem a contemplação de nenhum deus. Crer na existência de uma alma imortal é enganar-nos em vida, para melhor tolerar a ideia da morte, é a fuga metafísica absurda para um absurdo e impossível mundo além da vida. E a vida é isto que aí está: basta olharmos para fora de nós mesmos, basta abrir a janela e contemplar a natureza. Não há metafísica na natureza. Não há espiritualidade na natureza. Somos concretos e vivemos num mundo concreto, e essa é toda a magia desse mundo.


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