Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

terça-feira, 21 de julho de 2015

VOCÊ PODE NÃO ACREDITAR, MAS A RELIGIÃO É FRUTO DA CIÊNCIA...



(Victor Meireles - Primeira missa no Brasil - 1860)



A base da sobrevivência da humanidade não está na superstição, no misticismo ou na religião, mas na ciência, mesmo quando essa ciência vem embalada em superstição, misticismo e religião. Quando o xamã da tribo primitiva (e pense no mais longínquo tempo da história dos seres humanos possível), após um longo período de seca, convoca os guerreiros caçadores a dançar a dança da chuva - e a chuva acontece - é porque, munido de uma ciência ou tecnologia mais aguçadas que os demais (em todo grupamento humano, há sempre os "diferentes"), ele, provavelmente, "leu" na natureza os indícios, ocultos para os demais, de que se aproxima um período chuvoso. Assim, reforçando a superstição, o misticismo e a religião com a dose certa de ciência e tecnologia, ele ganha mais poder e, claro, melhores condições de vida, ao recolher dos atônitos membros da tribo não aquinhoados com a "visão" o reconhecimento de seus poderes falsamente mágicos. Consequentemente, o xamã não precisa mais trabalhar - caçar, guerrear etc. - como os demais. Dedica-se, agora, ao aperfeiçoamento de sua ciência, à proteção do conhecimento e, por último, à transmissão desse conhecimento a outros indivíduos de sua confiança e escolha, em geral advindos de sua prole, dando origem à casta sacerdotal. Que, de forma mais uma vez esperta, atribui a um deus ou aos deuses a sua capacidade de cuidar da chuva, do destino da tribo, da vida das pessoas. Aos poucos, esse poder cresce e torna-se hegemônico. Nada se faz sem a devida consulta aos deuses, através da casta sacerdotal. E os deuses tornam-se cada vez mais exigentes, a ponto de, em muitas tribos, exigir sacrifícios - até humanos - ou estabelecer regras de conduta, em geral como forma de amedrontar, controlar e vigiar os membros da tribo, agora não mais tão primitiva, mas já detentora de ciências e tecnologias mais avançadas, próximas do homem moderno.

Não sei se foi assim que nasceu a religião. Há outros fatores, como a "descoberta" ou indução à metafísica, ao mundo dos "espíritos", de que já tratei em outro momento, através da confusão primitiva dos primeiros homens do sonho com a realidade. Se o irmão morreu, mas aparece em sonhos, então ele não está morto. E a esperança de que há uma vida além da morte se instala. Ou a ideia de que há seres além da vida. Ou que há um outro mundo além desse. Porém, a minha hipótese é essa. A religião nasceu da "ciência", nasceu do conhecimento. E tornou-se dona dele. Até certo ponto. Porque o ser humano evoluiu com a aquisição de conhecimentos, evolução lenta e gradual, em virtude das necessidades de sobrevivência do dia a dia. Mesmo que essa ciência seja muito específica, voltada apenas para um aspecto de suas vidas, ela é, com certeza, o gérmen para saltos maiores, ao propiciar a evolução do pensamento dos indivíduos e, por consequência, da tribo.

No livro O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan cita antropólogos que relatam a capacidade extraordinária de detectar e interpretar pegadas no solo de uma tribo africana do deserto de Kalahari, nas repúblicas de Botsuana e Namíbia, o povo !Kung San. Os caçadores conseguem identificar os animais responsáveis pelas pegadas, bem como o tempo em que isso ocorreu, para onde eles foram, quantos eles são e onde devem estar no momento. Também identificam o rastro uns dos outros, sabendo se algum deles passou por ali antes e se já alcançou a caça cobiçada.

De acordo com Sagan, é o mesmo conhecimento que os cientistas utilizam para determinar, por exemplo, a idade de uma cratera na Lua ou em outro planeta: se é rasa, ou seja, se já houve o depósito de poeira ou terra, de folhas e gravetos, ou a superposição de outras pegadas, ela é uma pegada ou uma cratera mais antiga; se, ao contrário, o rastro ou a cratera são profundas, sem erosão das bordas etc., então é mais recente.  Enfim, conhecimento extraído da observação atenta da natureza e suas modificações. Ciência, ciência pura. E foi dessa ciência que nasceu a religião e não o contrário.

O problema é que a religião, ou seja, os sacerdotes que se adonaram do conhecimento e o transformaram em religião começaram a temer a ciência que lhes deu origem, porque não é possível impedir que outros indivíduos não ligados à crença também observem e desenvolvam seus próprios conhecimentos. Para se proteger, começaram a criar uma rede de códigos, de restrições e mandamentos. E ameaças de punição por parte dos deuses. Nasceu, assim, a noção do "pecado", para as grandes religiões ocidentais e outras formas de proibições e punições, para outras seitas espalhadas pelo mundo. E quanto mais evoluía o pensamento, a tecnologia, a ciência, enfim, mais furibundos tornaram-se os deuses. A história todos conhecem: perseguições, prisões, condenações e mortes.


Essa a minha hipótese para o nascimento da religião e, principalmente, para a necessidade que têm os padres, pastores, aiatolás, rabinos, xamãs e profetas de toda espécie de controlar o seu "rebanho", através de regras de conduta tão absurdas e contraditórias, que só a ameaça do fogo eterno consegue assustar satisfatoriamente os crentes e mantê-los atrelados a superstições ou a um misticismo exacerbado que eles inculcam em seus fiéis seguidores. Com isso, obtêm, como o nosso xamã primitivo, o poder sobre as pessoas e, consequentemente, todas as regalias de líderes do grupo ou a riqueza obtida da extorsão pura e simples que é a venda de falsos milagres ou de uma vida eterna sem dores, remidos os pecados de quem contribui e entrega seus bens materiais e dinheiro, muito dinheiro, à administração de deuses cada vez mais exigentes e famintos, agora não mais por sacrifícios humanos.



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