Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

quinta-feira, 5 de março de 2015

DISCORDANDO - SÓ UM POUCO - DE UM MESTRE



(Giovanni Battista Tiepolo - Perseu e Andrômeda)




O termo ATEU não provoca discussões. Embora, muita gente o confunda com "agnóstico", por exemplo. Ou o defina como "pessoa que não acredita em deus". Não, o ateu não é o que não acredita em deus, mas é a pessoa que afirma que deus não existe. Há, aí, um profunda diferença: não acreditar implica que possa até existir, mas eu não creio, não acredito. Negar a existência de deus ou de deuses, simplesmente, é o cerne do ateísmo. Aliás, mais nada: ateísmo é só isso.

Já a crença em deus ou deuses eu denomino teísmo ou deísmo. Para mim, as duas palavras diferem apenas quanto à origem, à raiz: a primeira tem raiz grega (théos, deus) e a segunda, raiz latina (deus, dei). Quase sempre prefiro usar a segunda, por achar que é uma palavra mais próxima do português e por ter uma origem "menos nobre", mais pé no chão, sem o contexto grego clássico, que lhe dá um ar mais solene. Mas, isso é apenas cisma minha, uma espécie de idiotismo, no sentido de idiós, próprio, ou seja, uma característica pessoal, o que não evita que alguns (principalmente alguns deístas) me considerem um idiota, no sentido de tolo. Enfim, terminologia é sempre problemática, porque envolve definições às vezes complexas e as palavras são signos extremamente mutantes e traiçoeiros.

Tudo isso para dizer que encontrei um texto de Richard Dawkins (o mestre a que me referi no título desta matéria) em que ele distingue "deísmo" de "teísmo":

"Refresquemos nossa memória sobre a terminologia. Um teísta acredita numa inteligência sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subsequente de sua criação inicial. Em muitos sistemas teístas de fé, a divindade está intimamente envolvida nas questões humanas. Atende a preces; perdoa ou pune os pecados; intervém no mundo realizando milagres; preocupa-se com boas e más ações e sabe quando as fazemos (ou até quando pensamos em fazê-las). Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cujas ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. O deus deísta nunca intervém depois, e certamente não tem interesse específico nas questões humanas. Os panteístas não acreditam num deus sobrenatural, mas usam a palavra deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa seu funcionamento. Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteístas pelo fato de que o deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado." (in Deus, um delírio; Companhia das Letras; 2007; tradução de Fernanda Ravagnani; páginas 42/43).

Bem, fico tentado a perguntar: se você não é ateu, você é um deísta, um teísta ou um panteísta?

Acho tudo isso um tanto confuso e, mais: não creio ser necessário entrar em tal detalhamento de conceitos, fica me cheirando a coisa de teólogo. Eles, os teólogos, é que adoram entrar nesse tipo de discussão, para encher a linguiça de seus livros sobre deus e deuses e enganar os trouxas com falsa erudição. Para mim, deísmo e teísmo são a mesma coisa: crença em um ser criador, um deus ou vários deuses. Nem me interessa esse papo de monoteísmo ou politeísmo, já que, na verdade, no fundo, não existe monoteísmo: quem diz que acredita num só deus está mentindo ou ignora o fato de que, na verdade, cada pessoa tem uma visão diferente do deus, ou seja, há um deus para cada indivíduo. E panteísmo é só uma das inúmeras vertentes ou distrofias da crença em deus ou em deuses.


Que me desculpe, portanto o mestre Richard Dawkins, mas continuarei a dizer que sou ateu, ou seja, nego a existência de deus ou de deuses. E o contrário disso, ou seja, a pessoa que acredita em deus ou em deuses é teísta ou deísta, indiferentemente. A mim, isso me basta.


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