Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

sexta-feira, 27 de março de 2015

ATEÍSMO NÃO É FILOSOFIA







É necessário mil vezes repetir e redundantemente repetir: o ateísmo não é, nunca foi, não será e não pode ser um sistema filosófico. Ser ateu é afirmar a não existência de deus ou de deuses. Nada mais. Pode-se até imaginar um código de ética a partir dessa ideia. Mas, não será um código de ética ateísta. Será um código de ética humano. Baseado em valores humanos. O ateísmo apenas reforça a valorização do humano, obviamente, porque não será um código de ética que esteja dependurado em um deus qualquer, ou em uma religião, ou em nada que seja espiritual ou sobrenatural. Podia, inclusive, ser adotado até pelos deístas, se eles não o contaminarem com suas crenças estapafúrdias. Terá, ou melhor, tem esse código de ética uma palavra básica - RESPEITO. Respeito à vida, considerada o bem supremo; respeito ao outro, em toda a plenitude do seu seu significado; e respeito à natureza, com todas as consequências de preservação do planeta em que vivemos. Outras decorrências desse pilar podem advir, como um cientificismo cético, ou seja, acreditar que a solução dos problemas da humanidade esteja na ciência, desde que se respeitem os princípios básicos de seriedade e comprovação das pesquisas científicas. Não se erigem  os cientistas como novos gurus, porque esse modelo há muito se esgotou com o deísmo. Erige-se a ciência como guia e farol. Também agrega valor ao ateísmo e a um código de ética dele decorrente, como consequência do pilar básico de respeito à vida, a defesa do igualitarismo econômico, a condenação de sistemas capitalistas predatórios e a busca do socialismo e da democracia plena e total, com oportunidade de vida e de sobrevivência decente para todos os seres humanos. Não cabe, portanto, dentro do conceito de respeito, qualquer tipo de totalitarismo. Enfim, já me estendi demais, embora os temas decorrentes do ateísmo possam no levar a inúmeras divagações em torno de um novo código de ética para a humanidade. Aliás, nem é um novo código, é apenas o estabelecimento de princípios que já existem por aí, mas, muitas vezes, contaminados por um viés deísta. O que deve ficar bastante claro e óbvio é a ideia central desta pequena dissertação de que o ateísmo não seja uma nova filosofia ou implique na construção de um sistema filosófico complexo, com regras que levem a uma instrumentalização que o transforme em uma nova religião. Não se quer mais que existam quaisquer tipos de gurus, padres, pastores, aiatolás, pajés e quejandos, a fazer a ligação entre o povo e essa nova filosofia, porque é disso mesmo que o ateísmo quer se livrar. Por isso, repete-se que o ateísmo, em si mesmo, é só afirmação de que não há deus ou deuses. O que, ao cabo e ao fim, consiste na libertação do pensamento humano de conceitos espúrios e na reconstrução, não exatamente dentro do ateísmo, mas a partir dele, de uma nova maneira de encarar a vida.


quinta-feira, 26 de março de 2015

O ATEÍSMO É LIBERDADE








Admiro a cultura e o conhecimento de Richard Dawkins. Seu livro, Deus, um delírio, tem mais de quatrocentas páginas para provocar os deístas, contrapondo argumentos à existência de deus, com lógica, com a ciência e, principalmente, com muita paciência. Paciência para com os deístas. Paciência que eu não tenho. Para mim, a inexistência de deus ou de deuses e, por conseguinte, o desmoronamento de todo o arcabouço das religiões, são algo tão claro e cristalino, baseado em apenas um único argumento: o ser humano não precisa de deus ou de deuses. O pensamento ateu é libertador. Quando o ser humano afirma: deus não existe, ele está tirando de seu pescoço toda a cangalha deísta de ódios, de exclusões, de temores, de subserviência a "representantes de deus", com sua ganância, sede de poder e arrogância. Pense bem: não há mais céu nem inferno. Não há mais pecado. Não há mais tempo perdido com rezas, cerimônias, cultos, leituras inúteis e pregações de submissão e de exclusão do outro, por não ter o mesmo deus, a mesma religião. Não vou levantar nenhum outro argumento a não ser esse. Se quiserem que eu acredite que deus existe, que provem, cientificamente, a sua existência. Nós nascemos ateus, tornamo-nos deístas por imposições sociais, de convivência, já que, desde o berço, o que eu chamo de lobby deísta se manifesta, impondo seus conceitos, sua liturgia. Não, não precisamos de deus. E qualquer um que viver por algum tempo a experiência de não pensar em deus como aquele "cara" que o vigia o tempo todo, que sabe tudo a seu respeito e cobra dízimo e exige que o cultue; qualquer um que deixe de se submeter às extravagâncias de uma religião conseguirá chegar a esta conclusão óbvia: deus não existe, porque você não precisa dele. Não, não se precisa de deus ou deuses para se viver. O ateísmo é liberdade. Liberdade total de pensamento. Não de fazer tudo o que quiser, mas viver livre dentro de uma ética que, para os ateus, tem como centro, como orientação de sua vida, valores exclusivamente humanos, baseados no respeito à vida, ao outro e à natureza. Não há necessidade de livros de revelação escritos há centenas ou milhares de anos, exaltando deuses carniceiros, para que vivamos em harmonia com nosso interior, com as demais pessoas, com a natureza e com com todos os demais seres vivos deste planeta, respeitando a vida acima de tudo e preservando as condições ideais de vida na Terra.



quinta-feira, 5 de março de 2015

DISCORDANDO - SÓ UM POUCO - DE UM MESTRE



(Giovanni Battista Tiepolo - Perseu e Andrômeda)




O termo ATEU não provoca discussões. Embora, muita gente o confunda com "agnóstico", por exemplo. Ou o defina como "pessoa que não acredita em deus". Não, o ateu não é o que não acredita em deus, mas é a pessoa que afirma que deus não existe. Há, aí, um profunda diferença: não acreditar implica que possa até existir, mas eu não creio, não acredito. Negar a existência de deus ou de deuses, simplesmente, é o cerne do ateísmo. Aliás, mais nada: ateísmo é só isso.

Já a crença em deus ou deuses eu denomino teísmo ou deísmo. Para mim, as duas palavras diferem apenas quanto à origem, à raiz: a primeira tem raiz grega (théos, deus) e a segunda, raiz latina (deus, dei). Quase sempre prefiro usar a segunda, por achar que é uma palavra mais próxima do português e por ter uma origem "menos nobre", mais pé no chão, sem o contexto grego clássico, que lhe dá um ar mais solene. Mas, isso é apenas cisma minha, uma espécie de idiotismo, no sentido de idiós, próprio, ou seja, uma característica pessoal, o que não evita que alguns (principalmente alguns deístas) me considerem um idiota, no sentido de tolo. Enfim, terminologia é sempre problemática, porque envolve definições às vezes complexas e as palavras são signos extremamente mutantes e traiçoeiros.

Tudo isso para dizer que encontrei um texto de Richard Dawkins (o mestre a que me referi no título desta matéria) em que ele distingue "deísmo" de "teísmo":

"Refresquemos nossa memória sobre a terminologia. Um teísta acredita numa inteligência sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subsequente de sua criação inicial. Em muitos sistemas teístas de fé, a divindade está intimamente envolvida nas questões humanas. Atende a preces; perdoa ou pune os pecados; intervém no mundo realizando milagres; preocupa-se com boas e más ações e sabe quando as fazemos (ou até quando pensamos em fazê-las). Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cujas ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. O deus deísta nunca intervém depois, e certamente não tem interesse específico nas questões humanas. Os panteístas não acreditam num deus sobrenatural, mas usam a palavra deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa seu funcionamento. Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteístas pelo fato de que o deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado." (in Deus, um delírio; Companhia das Letras; 2007; tradução de Fernanda Ravagnani; páginas 42/43).

Bem, fico tentado a perguntar: se você não é ateu, você é um deísta, um teísta ou um panteísta?

Acho tudo isso um tanto confuso e, mais: não creio ser necessário entrar em tal detalhamento de conceitos, fica me cheirando a coisa de teólogo. Eles, os teólogos, é que adoram entrar nesse tipo de discussão, para encher a linguiça de seus livros sobre deus e deuses e enganar os trouxas com falsa erudição. Para mim, deísmo e teísmo são a mesma coisa: crença em um ser criador, um deus ou vários deuses. Nem me interessa esse papo de monoteísmo ou politeísmo, já que, na verdade, no fundo, não existe monoteísmo: quem diz que acredita num só deus está mentindo ou ignora o fato de que, na verdade, cada pessoa tem uma visão diferente do deus, ou seja, há um deus para cada indivíduo. E panteísmo é só uma das inúmeras vertentes ou distrofias da crença em deus ou em deuses.


Que me desculpe, portanto o mestre Richard Dawkins, mas continuarei a dizer que sou ateu, ou seja, nego a existência de deus ou de deuses. E o contrário disso, ou seja, a pessoa que acredita em deus ou em deuses é teísta ou deísta, indiferentemente. A mim, isso me basta.