Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

SOBRE AMORES E ÓDIOS



(Artemisia Gentileschi)




Este vai ser o texto mais pessoal que eu já escrevi, para este blog. Vou falar de amor. Sei que o assunto tem sido objeto de milhares e milhares de textos e obras, desde tratados filosóficos até obras ficcionais e poéticas. Desgastado? Nem tanto. Porque é o sentimento, ou a palavra, que parece mais constante no pensamento humano. Todo mundo pensa em amar. Todo mundo fala de amor. Todo mundo parece procurar um amor. O amor está no ar (Love is in the air, de John Paul Young), como diz a velha canção estadunidense. E mais: Love is a many splendored thing - o amor é uma coisa maravilhosa, de Andy Williams. E podíamos fazer um catálogo de milhares e milhares de canções que todos ouvem e cantam, pelo mundo afora, enaltecendo o amor, falando de amor. E poemas? Não teria fim a lista. Então, esqueçamos tudo isso e vamos àquilo que me interessa: o amor, em suas várias formas. Dentre elas, a mais comum: o amor entre dois seres humanos desconhecidos. Que se apaixonam e resolvem - por curto ou longo tempo - compartilhar suas vidas uns com os outros. O chamado amor carnal, ou algo parecido. Devo dizer, como exemplo para o raciocínio que pretendo desenvolver, que amei a várias mulheres. Não tenho como pesar e medir o amor que senti a cada uma delas, ou seja, não é possível medir a quantidade e a intensidade de amor que manifestei ou que experimentei em relação a cada uma delas. Mas, de uma coisa eu tenho certeza: o amor nunca foi igual, a cada uma dediquei um amor diferente. Repito: diferente, mas não mais intenso, não maior. Apenas diferente. Ou seja, o amor dito carnal tem maneiras diferentes de se manifestar em cada ser humano, dependendo do seu grau de maturidade, dependendo da época, dependendo do outro ser humano e de, talvez, inúmeras outras circunstâncias. Não devíamos ter palavras diferentes, para designar sentimentos tão diferentes? Porém, não temos. E jogamos todos esses sentimentos numa única expressão, num único sintagma. Amor. Mas, antes do amor dito carnal, temos o amor aos pais, aos irmãos, aos parentes, ou seja, o amor ao clã. Amamos nosso pai e amamos nossa mãe. São iguais os sentimentos? Em intensidade e quantidade, é possível que não. Mas são diferentes, muito diferentes. Àquela que nos deu à luz e nos deu o leite, sem dúvida, que se ama de forma diferente do que àquele que nos protege e nos orienta para a vida. Ou algo assim. De qualquer forma, são tipos de amor diferentes. Depois, os irmãos, se os temos: para cada um, temos um amor, também diverso, embora possa - ou não - não haver diferença de quantidade ou intensidade. Os parentes, a mesma coisa. Há um tipo de amor a cada um, dependendo do grau de proximidade, de empatia, de convivência. Devíamos ter palavras diferentes para cada um desses sentimentos amorosos, não é? Mas, não temos: jogamos todos numa mesma rubrica - amor. Amigos. Será preciso dizer que os amamos a todos, mas de forma diferente, mesmo que a quantidade e a intensidade de amor seja a mesma? E jogamos todos esses tipos de amor na mesma desgastada palavrinha. E há o amor a ídolos, como escritores, artistas, políticos, líderes etc. E formas ainda mais estranhas de amor. Se pensarmos num indivíduo como Hitler, a maioria dos seres humanos que tenham um mínimo de conhecimento de história, imediatamente o considerará um ser que, absolutamente, não deve, não pode e não foi amado. No entanto, Hitler foi, sim, amado, por sua mãe, por familiares, por amigos. E pasmem: houve um momento em que ele foi amado por todo um povo, ou, pelo menos, pela maioria de todo um povo, o alemão. E mais: apesar de todas as atrocidades que ele cometeu, há ainda seres humanos que o amam e o admiram, não só na Alemanha, mas em inúmeros outros lugares. Portanto, podemos afirmar que há, sim, milhares e milhares de tipos de amor, ainda que ficássemos só naqueles que consideramos quantitativamente e qualitativamente iguais ou semelhantes. O ser humano desenvolveu essa capacidade de empatia, muito além da necessidade de reprodução, que é a forma de amor primeira e, de alguma maneira, intensa em todos os seres que precisam se reproduzir por meio sexuado. Talvez até as plantas, se deixarmos correr nossa imaginação. E dentro desse mar infinito de amores, o ser humano ainda inventou um ser supremo que diz que se deve amá-lo acima de todas as outras coisas, acima de todos os outros seres, e ser-lhe fiel e submisso, prestando-lhe contínuas contas e homenagens, senão haverá punições severas, neste e num pretenso outro mundo. E esse deus não está sozinho: dependendo da religião ou seita professadas, ele vem acompanhado de uma horda de entidades secundárias, com denominações diversas, a exigir o mesmo empenho amoroso e as mesmas homenagens. E também dependendo da religião ou seita professadas, o deus supremo todo poderoso - tão poderoso que nem necessitaria do amor humano, mas mesmo assim o exige -, não contente com os atestados de fidelidade amorosa, exige que seus seguidores odeiem aqueles que não o amam. Esse ódio pode ser insuflado de formas sutis ou extremamente diretas. O que não importa muito para o tipo de raciocínio que estamos desenvolvendo. O que importa é que chegamos ao antípoda do amor, o ódio. Porque, dentre as formas mais sutis e mais cruéis de amor supremo ao ser supremo está o fato de que essa fidelidade amorosa não permite meio termo, ou seja, se não amo o meu vizinho, não preciso odiá-lo, mas o amor à divindade deve ser de tal grandeza, que não permite que não odeie aquele que não o ama. É claro que seres de uma certa clarividência não manifestam esse ódio, porque compreendem melhor os mecanismos não só da própria seita ou religião, mas também os mecanismos que movem as relações humanas. Ou seja, são seres que compreendem que o fato de um outro ser humano não amar o seu deus não o torna odiável. Mas os seres mais impressionáveis - que não são poucos - assim não compreendem e tornam-se indivíduos que levam ao pé da letra a fidelidade amorosa ao seu deus, que levam ao pé da letra a palavra dos iluminados profetas de sua crença, tornando-se o que chamamos de fanáticos e fundamentalistas. Esses, quando dominam uma seita, transformam-na em arma de extinção, em nome do seu deus, de todos aqueles que não seguem os seus princípios e as suas regras, às vezes regras absurdas de dominação e de segregação racial, sexual e social. Quando o objeto de amor incondicional, como o amor à divindade, exige a fidelidade de todos os seres humanos e tal consenso é, obviamente, impossível, esse amor leva ao sentimento mais profundo de necessidade de destruição do outro, que é o ódio de fundamento religioso. Eu posso odiar o meu vizinho, por uma richa qualquer, mas não necessariamente esse ódio me levará a eliminá-lo. É possível conviver com ódio ao outro, pelo menos entre seres de uma certa compreensão das relações humanas, como já dissemos acima, porque podemos cultivar algo muito mais essencial à humanidade que o ódio e, até mesmo, o próprio amor, que é o respeito. Pode-se respeitar o outro, a vida do outro, a existência do outro. Já o ódio de fundamento religioso, porque exigido pela divindade cruel, não permite que se tenha respeito ao outro: deseja sempre a sua destruição, se não a destruição física, a sua morte, que seja a sua destruição (simbólica) no fogo do inferno, ou, pelo menos, algum tipo de castigo decretado pela divindade. O ódio religioso só se aplaca com o consentimento do deus, ou com a punição decretada e cumprida por esse deus. Mas, como esse deus, muitas vezes, através da palavra profética ou de seus mandamentos, não se satisfaz apenas com a pena após a morte, atribui a seus seguidores ou a alguns de seus seguidores o poder de decidir, aqui mesmo, pela punição. Então, criam-se tribunais divinos, como foi a inquisição católica entre os séculos XV e XVIII, ou as milícias de guardiães da fé e dos seus ritos, como o fazem os perigosos e crudelíssimos taliban e, mais recentemente, os seguidores fundamentalistas de uma seita denominada "estado islâmico", que mistura crença, política e divisão de poder, nos territórios onde atua, matando milhares de pessoas, destruindo cidades e regiões de países do Oriente, sob a ordens de um profeta morto há mais de mil e quinhentos anos. Amor e ódio, no contexto deísta faz do amor o sentimento mais explosivo do ser humano. E do ódio a sua forma de matar e destruir. Portanto, o amor, esse nobre sentimento, cantado em verso e prosa, descrito e estudado por centenas de pensadores, admirado e desejado por todos, não passa, talvez, de mais uma criação humana que foi devidamente apropriada por todo tipo de desculpa para que o ser humano continue cumprindo a sua vocação milenar de derramamento de sangue. Sem perceber que esse sentimento - que consideramos como nobre - tem origem na evolução humana e não na queda do ser humano a partir da desobediência a um deus que o criou, na versão criacionista do cristianismo, aceita e inserida na mente humana, como um vírus, uma praga que precisa ser combatida e derrotada, para sempre. Só assim aprenderemos que ao ser humano não é necessário amar, indiscriminadamente, mas respeitar, respeitar a vida, a existência e a fantástica diferença que há entre cada um de nós, nessa casca de noz em que nascemos, vivemos e morremos, perdidos no espaço infinito, e que não há, absolutamente, nenhum deus a nos escravizar. Odiemos e matemos os deuses, não os seres humanos.



terça-feira, 13 de outubro de 2015

DE METAFÍSICAS E TRANSCENDÊNCIAS



 (Mark Ryden - alegoria dos quatro elementos)


Metafísica é invenção. Pura invenção. Ficção. Nada há "além da física", ou além da matéria. Só o pensamento. E o pensamento, com tudo o que o implica, como capacidade de raciocinar, de imaginar, de sonhar, de criar, não tem, absolutamente, nada de metafísico. É uma capacidade humana, quiçá de outros organismos vivos. O ser humano não precisa de metafísica, para viver e sobreviver. Precisa apenas usar sua capacidade de pensar, de resolver problemas.


E então, pode-se perguntar: e a transcendência? E a espiritualidade. O que chamamos transcendência, ou "espiritualidade", nada tem da famigerada metafísica. Se queremos transcendência, ou "espiritualidade", sonhemos, imaginemos, criemos. E leiamos literatura, poesia. Ouçamos música. De preferência os chamados "clássicos". Vamos ao teatro. Assistamos a um bom filme. Ou a um espetáculo de dança. Contemplemos obras de arte visuais. Ou o velho e bom pôr do sol. Contemplemos a natureza. Banhemo-nos nas águas de um rio. E, sobretudo, respeitemos a vida. Admiremos a capacidade dos seres vivos e da natureza de nos fornecer não apenas beleza, mas também a nossa sobrevivência. Não é preciso rezar, orar, praticar salamaleques e cerimônias, para viver e contemplar a natureza, admirá-la e encher nosso "espírito" de paz, de harmonia, de desejo de respeitar a vida humana e os demais seres humanos. E não tomemos ao pé da letra o termo "espírito", que nada tem a ver com a existência de seres mortos, de vida depois da vida, de anjos, demônios, santos, orixás, ou quaisquer outros nomes que se deem a entidades místicas. "Espírito", aqui, tem apenas o significa daquilo que está dentro de nós e que ainda não conseguimos definir muito bem, aquilo que nos move e comove, enquanto seres vivos. Eliminemos o misticismo de nossas vidas, como um tributo à nossa liberdade de sermos o que somos: seres vivos, produto de uma longa, longuíssima cadeia biológica evolutiva, e não seres criados por qualquer deus cruel e vingativo, a nos cobrar fidelidade ou qualquer outro tipo de servidão. Deus é escravidão. Crer em divindades significa abaixar a cerviz, como um escravo, e dar o pescoço à forca ou ao machado do carrasco. Deus é o carrasco do homem. Nada mais. Livrar-se dele é tornar-se o homem verdadeiramente livre, como, metaforicamente diz Olavo Bilac em seu poema, Alvorada do amor: "Porque, livre de Deus, redimido e sublime, / Homem fico na terra, à luz dos olhos teus, / Terra, melhor que o Céu! homem maior que Deus!"



domingo, 11 de outubro de 2015

ARTE "SACRA"




 (Catedral de Brasília - foto da internet, s/indicação de autoria)


Invenção suprema do ser humano, a arte já ocupou milhares de tratados, para tentar ser entendida. Por que se faz arte? Acho que nem importa mais a resposta e, portanto, a pergunta passa a ser meramente retórica. O fato é que o ser humano faz arte, necessita fazer arte, como forma de buscar transcendências que o enalteçam. Sim, que o enalteçam. Pois que a finalidade da arte é enaltecer o ser humano, torná-lo mais humano, engrandecê-lo, tanto ao fazer arte, quanto ao contemplar a arte. Temos melhor a noção do que somos capazes, quando conseguimos criar. Qualquer que seja sua expressão, a arte constrói pontes entre aquilo que somos e aquilo que queremos ser. Não há nada mais humano no ser humano do que a capacidade de buscar, através de signos, o conhecimento profundo de si mesmo, construindo mundos imaginários ou interpretando o mundo que se conhece.


Há, no entanto, um tipo de arte que não tem a finalidade de engrandecer o homem: tem a finalidade de diminuí-lo perante a divindade, diante de um deus criado para oprimi-lo. Quando o artista se coloca a serviço de um sistema de crenças deístas, quando busca expressar a pretensa vontade de deuses ou de um deus, sua capacidade criadora torna-se escrava do princípio de que o ser humano precisa ser diminuído em sua grandeza, para que o deus a que ele serve seja engrandecido. Constroem-se, então, catedrais que obrigam o ser humano a olhar para cima e ver-se apequenado diante da potência divina. A escultura narra não a grandeza do ser humano, mas sua submissão. A pintura exalta a beleza dos deuses  ou do deus. A literatura, seja em prosa ou verso, exalta sempre as qualidades do deus e trata o ser humano como aquele que precisa reverenciá-lo, para se redimir. A dança, quando executada em cerimoniais, torna homens e mulheres apenas expressões atônitas diante da supremacia divina. E a música vai à exaustão da reiteração, para esmagar qualquer possibilidade de introspecção humana que o eleve como criatura, e usa de todos os recursos sonoros para entorpecer o ser humano e torná-lo um ser não pensante, um ser asfixiado por uma pretensa fé, em busca de uma salvação pregada e mil vezes repetida, para se tornar verdade. Todos os deuses são criaturas cruéis e tristes em si mesmas, e refletem isso na arte que o ser humano realiza para exaltá-los, o que transforma a tal arte "sagrada" ou "sacra" num arremedo da grande arte humana e em algo extremamente aborrecido para quem não comunga com a fé e as crenças deístas. Por isso, exprobro, sim, a arte "sacra", como simulacro de arte, como arremedo de arte, por sua finalidade utilitária e totalitária, por sua capacidade de entorpecimento e de embrutecimento da capacidade libertadora que a arte propicia ao ser humano, a ponto de achar que essa "arte sacra" é tremendamente aborrecida, se contemplada ou absorvida como expressão de culto. Pode, até haver beleza, na tal "arte sacra", mas é uma beleza corrompida, ao escolher o apequenamento do ser humano, em vez de seu engrandecimento ou de sua busca por humanização. É, portanto, uma arte desumana e cruel, a "arte sacra", em qualquer de sua expressão. Não defendo a sua destruição, claro, porque destruir o que o ser humano construiu constitui um ato de vandalismo inútil, digno de seres inferiores, mas não defendo e não aprecio nenhum tipo de manifestação artística que tenha por princípio a metafísica do deísmo cruel e desumano. 


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A MAGIA DO MUNDO




(Katsushika Hokusai -Shichiri beach, in Sagami province)



Tenho horror a todas as formas e manifestações de religiosidade, de espiritualismo, de metafísicas. Basta olhar para fora de nós mesmos, ou ao nosso redor, ou abrir a janela e contemplar o mundo, a natureza, o espaço que nos rodeia, para que percebamos que não há metafísica, não há espiritualidade, não há manifestações que não sejam naturais, concretas, motivadas por leis físicas. Nenhum ser humano, em nenhum momento da história, nesses milhares de anos e séculos de vida humana sobre a Terra, terá visto, ouvido, sentido, cheirado ou saboreado qualquer coisa que se relacione a deuses ou a um deus, a espíritos, ou tido qualquer percepção que não fosse explicável pela nossa incipiente ciência ou que ainda possa ser explicável. Somos seres concretos e vivemos num mundo concreto, de coisas concretas; por essas coisas que vemos, ouvimos, sentimos, cheiramos, saboreamos não perpassam forças espirituais, nem formas de energia que não possam ser medidas e, se algumas ainda não o foram, é só uma questão de tempo. Podemos orar, xingar ou ficar mudos, que nenhum deus ou espírito ou divindade irá acorrer ou não em nosso auxílio, diante de qualquer situação. Se, num grande desastre, algum ser humano se salva, pode ter a certeza de que para isso concorreram situações perfeitamente possíveis de acontecer, sem nenhuma interferência de qualquer divindade. Além do mais, que divindade mais sacana seria essa, a escolher dentre milhares um ou uns poucos para salvar? Por que motivo salvou-se fulano e não beltrana? Se, como dizem alguns, foi a fé, como essa divindade - que só pode ser uma grandessíssima filha da puta - conseguiu obter dados suficientes e precisos de quanta fé tem o fulano de tal, em relação aos outros milhares que pereceram, por exemplo, na ocorrência de um grande terremoto ou de uma grande enchente? Pode-se, sim, exprobrar à vontade o deus de qualquer religião, os espíritos, os chamados santos e santas, as virgens marias e toda a corja que forma o séquito desse deus sanguinário e cretino, que não haverá nenhuma retaliação, porque tudo isso é invenção da mente conturbada dos seres humanos, nascidos e criados todos esses pretensos deuses e divindades e anjos e demônios e santos e santas e profetas e quantos nomes se deem à legião espiritual da necessidade que todos temos de transferir nossos problemas e nossas desgraças para um sistema de crenças que nos absolvam de nossas imperfeições e, ainda, de quebra, nos auxiliem nos percalços da vida. Os mesmos deuses que inventaram os rios, criaram as enchentes. Por quê? Para atazanar a vida dos seres humanos? Os mesmos deuses que criaram a elegância e a beleza da corça também criaram o leão que caça, estraçalha e devora essa mesma beleza. Por quê? Para atazanar a vida das corças? Estupidez, pura estupidez a noção de um criador por trás de um mundo de leis como as que convivemos diariamente. A natureza - em que vimos beleza, há pouco, na elegância da corça - na verdade, não tem beleza ou justiça ou fealdade ou injustiça ou crueldade ou bondade. Tudo isso são categorias humanas. A natureza é apenas aquilo que é. O leão que mata, mata para comer, apenas isso. Para ele, não importa a beleza da corça ou a sabedoria de um ser humano: se tem fome, mata e come. E o ser humano não é nenhum anjo decaído de um absurdo paraíso, mas fruto de uma lenta, penosa e constante evolução. Implicando o conceito de evolução não exatamente de melhoria, mas de adaptação ao meio ambiente e o desenvolvimento de  sistemas mais complexos e mais refinados, que lhe permitam sobreviver. O ser humano somos nós e nossa história. Estamos no mundo porque adquirimos a capacidade, até hoje, de dominar certas forças da natureza e sobrepujar nossos predadores. Ganhou o nosso cérebro tal sofisticação, que nos permite criar. Ganhou o nosso corpo tal capacidade de manipular, que nos permite transformar o que nosso cérebro cria em realizações fantásticas. Mas somos produto do meio. Somos a nossa genética e nossa trajetória de luta e de sobrevivência. Não temos dentro de nós nenhuma faísca divina. Se morremos, fica apenas o que deixamos no mundo. Nada mais. A morte - de que, dentre os demais seres, somos talvez os únicos a ter noção do que seja - implica a desaparição total, o aniquilamento. Não há sobrevivência. Não há outra vida. Saber que vamos morrer é a única maldição de sermos humanos, mas não podemos escapar disso. Consolemo-nos com o fato de que os mortos são sabem que morreram. Se isso pode ser chamado de consolo. Mas, fiquemos absolutamente certos de que não há um deus ou deuses ou quaisquer outras divindades a nos esperar, para nos conduzir a qualquer tipo de paraíso, depois que fechamos os olhos pela última vez. A certeza da vida é a morte. E a morte não tem a contemplação de nenhum deus. Crer na existência de uma alma imortal é enganar-nos em vida, para melhor tolerar a ideia da morte, é a fuga metafísica absurda para um absurdo e impossível mundo além da vida. E a vida é isto que aí está: basta olharmos para fora de nós mesmos, basta abrir a janela e contemplar a natureza. Não há metafísica na natureza. Não há espiritualidade na natureza. Somos concretos e vivemos num mundo concreto, e essa é toda a magia desse mundo.


terça-feira, 21 de julho de 2015

VOCÊ PODE NÃO ACREDITAR, MAS A RELIGIÃO É FRUTO DA CIÊNCIA...



(Victor Meireles - Primeira missa no Brasil - 1860)



A base da sobrevivência da humanidade não está na superstição, no misticismo ou na religião, mas na ciência, mesmo quando essa ciência vem embalada em superstição, misticismo e religião. Quando o xamã da tribo primitiva (e pense no mais longínquo tempo da história dos seres humanos possível), após um longo período de seca, convoca os guerreiros caçadores a dançar a dança da chuva - e a chuva acontece - é porque, munido de uma ciência ou tecnologia mais aguçadas que os demais (em todo grupamento humano, há sempre os "diferentes"), ele, provavelmente, "leu" na natureza os indícios, ocultos para os demais, de que se aproxima um período chuvoso. Assim, reforçando a superstição, o misticismo e a religião com a dose certa de ciência e tecnologia, ele ganha mais poder e, claro, melhores condições de vida, ao recolher dos atônitos membros da tribo não aquinhoados com a "visão" o reconhecimento de seus poderes falsamente mágicos. Consequentemente, o xamã não precisa mais trabalhar - caçar, guerrear etc. - como os demais. Dedica-se, agora, ao aperfeiçoamento de sua ciência, à proteção do conhecimento e, por último, à transmissão desse conhecimento a outros indivíduos de sua confiança e escolha, em geral advindos de sua prole, dando origem à casta sacerdotal. Que, de forma mais uma vez esperta, atribui a um deus ou aos deuses a sua capacidade de cuidar da chuva, do destino da tribo, da vida das pessoas. Aos poucos, esse poder cresce e torna-se hegemônico. Nada se faz sem a devida consulta aos deuses, através da casta sacerdotal. E os deuses tornam-se cada vez mais exigentes, a ponto de, em muitas tribos, exigir sacrifícios - até humanos - ou estabelecer regras de conduta, em geral como forma de amedrontar, controlar e vigiar os membros da tribo, agora não mais tão primitiva, mas já detentora de ciências e tecnologias mais avançadas, próximas do homem moderno.

Não sei se foi assim que nasceu a religião. Há outros fatores, como a "descoberta" ou indução à metafísica, ao mundo dos "espíritos", de que já tratei em outro momento, através da confusão primitiva dos primeiros homens do sonho com a realidade. Se o irmão morreu, mas aparece em sonhos, então ele não está morto. E a esperança de que há uma vida além da morte se instala. Ou a ideia de que há seres além da vida. Ou que há um outro mundo além desse. Porém, a minha hipótese é essa. A religião nasceu da "ciência", nasceu do conhecimento. E tornou-se dona dele. Até certo ponto. Porque o ser humano evoluiu com a aquisição de conhecimentos, evolução lenta e gradual, em virtude das necessidades de sobrevivência do dia a dia. Mesmo que essa ciência seja muito específica, voltada apenas para um aspecto de suas vidas, ela é, com certeza, o gérmen para saltos maiores, ao propiciar a evolução do pensamento dos indivíduos e, por consequência, da tribo.

No livro O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan cita antropólogos que relatam a capacidade extraordinária de detectar e interpretar pegadas no solo de uma tribo africana do deserto de Kalahari, nas repúblicas de Botsuana e Namíbia, o povo !Kung San. Os caçadores conseguem identificar os animais responsáveis pelas pegadas, bem como o tempo em que isso ocorreu, para onde eles foram, quantos eles são e onde devem estar no momento. Também identificam o rastro uns dos outros, sabendo se algum deles passou por ali antes e se já alcançou a caça cobiçada.

De acordo com Sagan, é o mesmo conhecimento que os cientistas utilizam para determinar, por exemplo, a idade de uma cratera na Lua ou em outro planeta: se é rasa, ou seja, se já houve o depósito de poeira ou terra, de folhas e gravetos, ou a superposição de outras pegadas, ela é uma pegada ou uma cratera mais antiga; se, ao contrário, o rastro ou a cratera são profundas, sem erosão das bordas etc., então é mais recente.  Enfim, conhecimento extraído da observação atenta da natureza e suas modificações. Ciência, ciência pura. E foi dessa ciência que nasceu a religião e não o contrário.

O problema é que a religião, ou seja, os sacerdotes que se adonaram do conhecimento e o transformaram em religião começaram a temer a ciência que lhes deu origem, porque não é possível impedir que outros indivíduos não ligados à crença também observem e desenvolvam seus próprios conhecimentos. Para se proteger, começaram a criar uma rede de códigos, de restrições e mandamentos. E ameaças de punição por parte dos deuses. Nasceu, assim, a noção do "pecado", para as grandes religiões ocidentais e outras formas de proibições e punições, para outras seitas espalhadas pelo mundo. E quanto mais evoluía o pensamento, a tecnologia, a ciência, enfim, mais furibundos tornaram-se os deuses. A história todos conhecem: perseguições, prisões, condenações e mortes.


Essa a minha hipótese para o nascimento da religião e, principalmente, para a necessidade que têm os padres, pastores, aiatolás, rabinos, xamãs e profetas de toda espécie de controlar o seu "rebanho", através de regras de conduta tão absurdas e contraditórias, que só a ameaça do fogo eterno consegue assustar satisfatoriamente os crentes e mantê-los atrelados a superstições ou a um misticismo exacerbado que eles inculcam em seus fiéis seguidores. Com isso, obtêm, como o nosso xamã primitivo, o poder sobre as pessoas e, consequentemente, todas as regalias de líderes do grupo ou a riqueza obtida da extorsão pura e simples que é a venda de falsos milagres ou de uma vida eterna sem dores, remidos os pecados de quem contribui e entrega seus bens materiais e dinheiro, muito dinheiro, à administração de deuses cada vez mais exigentes e famintos, agora não mais por sacrifícios humanos.



sexta-feira, 27 de março de 2015

ATEÍSMO NÃO É FILOSOFIA







É necessário mil vezes repetir e redundantemente repetir: o ateísmo não é, nunca foi, não será e não pode ser um sistema filosófico. Ser ateu é afirmar a não existência de deus ou de deuses. Nada mais. Pode-se até imaginar um código de ética a partir dessa ideia. Mas, não será um código de ética ateísta. Será um código de ética humano. Baseado em valores humanos. O ateísmo apenas reforça a valorização do humano, obviamente, porque não será um código de ética que esteja dependurado em um deus qualquer, ou em uma religião, ou em nada que seja espiritual ou sobrenatural. Podia, inclusive, ser adotado até pelos deístas, se eles não o contaminarem com suas crenças estapafúrdias. Terá, ou melhor, tem esse código de ética uma palavra básica - RESPEITO. Respeito à vida, considerada o bem supremo; respeito ao outro, em toda a plenitude do seu seu significado; e respeito à natureza, com todas as consequências de preservação do planeta em que vivemos. Outras decorrências desse pilar podem advir, como um cientificismo cético, ou seja, acreditar que a solução dos problemas da humanidade esteja na ciência, desde que se respeitem os princípios básicos de seriedade e comprovação das pesquisas científicas. Não se erigem  os cientistas como novos gurus, porque esse modelo há muito se esgotou com o deísmo. Erige-se a ciência como guia e farol. Também agrega valor ao ateísmo e a um código de ética dele decorrente, como consequência do pilar básico de respeito à vida, a defesa do igualitarismo econômico, a condenação de sistemas capitalistas predatórios e a busca do socialismo e da democracia plena e total, com oportunidade de vida e de sobrevivência decente para todos os seres humanos. Não cabe, portanto, dentro do conceito de respeito, qualquer tipo de totalitarismo. Enfim, já me estendi demais, embora os temas decorrentes do ateísmo possam no levar a inúmeras divagações em torno de um novo código de ética para a humanidade. Aliás, nem é um novo código, é apenas o estabelecimento de princípios que já existem por aí, mas, muitas vezes, contaminados por um viés deísta. O que deve ficar bastante claro e óbvio é a ideia central desta pequena dissertação de que o ateísmo não seja uma nova filosofia ou implique na construção de um sistema filosófico complexo, com regras que levem a uma instrumentalização que o transforme em uma nova religião. Não se quer mais que existam quaisquer tipos de gurus, padres, pastores, aiatolás, pajés e quejandos, a fazer a ligação entre o povo e essa nova filosofia, porque é disso mesmo que o ateísmo quer se livrar. Por isso, repete-se que o ateísmo, em si mesmo, é só afirmação de que não há deus ou deuses. O que, ao cabo e ao fim, consiste na libertação do pensamento humano de conceitos espúrios e na reconstrução, não exatamente dentro do ateísmo, mas a partir dele, de uma nova maneira de encarar a vida.


quinta-feira, 26 de março de 2015

O ATEÍSMO É LIBERDADE








Admiro a cultura e o conhecimento de Richard Dawkins. Seu livro, Deus, um delírio, tem mais de quatrocentas páginas para provocar os deístas, contrapondo argumentos à existência de deus, com lógica, com a ciência e, principalmente, com muita paciência. Paciência para com os deístas. Paciência que eu não tenho. Para mim, a inexistência de deus ou de deuses e, por conseguinte, o desmoronamento de todo o arcabouço das religiões, são algo tão claro e cristalino, baseado em apenas um único argumento: o ser humano não precisa de deus ou de deuses. O pensamento ateu é libertador. Quando o ser humano afirma: deus não existe, ele está tirando de seu pescoço toda a cangalha deísta de ódios, de exclusões, de temores, de subserviência a "representantes de deus", com sua ganância, sede de poder e arrogância. Pense bem: não há mais céu nem inferno. Não há mais pecado. Não há mais tempo perdido com rezas, cerimônias, cultos, leituras inúteis e pregações de submissão e de exclusão do outro, por não ter o mesmo deus, a mesma religião. Não vou levantar nenhum outro argumento a não ser esse. Se quiserem que eu acredite que deus existe, que provem, cientificamente, a sua existência. Nós nascemos ateus, tornamo-nos deístas por imposições sociais, de convivência, já que, desde o berço, o que eu chamo de lobby deísta se manifesta, impondo seus conceitos, sua liturgia. Não, não precisamos de deus. E qualquer um que viver por algum tempo a experiência de não pensar em deus como aquele "cara" que o vigia o tempo todo, que sabe tudo a seu respeito e cobra dízimo e exige que o cultue; qualquer um que deixe de se submeter às extravagâncias de uma religião conseguirá chegar a esta conclusão óbvia: deus não existe, porque você não precisa dele. Não, não se precisa de deus ou deuses para se viver. O ateísmo é liberdade. Liberdade total de pensamento. Não de fazer tudo o que quiser, mas viver livre dentro de uma ética que, para os ateus, tem como centro, como orientação de sua vida, valores exclusivamente humanos, baseados no respeito à vida, ao outro e à natureza. Não há necessidade de livros de revelação escritos há centenas ou milhares de anos, exaltando deuses carniceiros, para que vivamos em harmonia com nosso interior, com as demais pessoas, com a natureza e com com todos os demais seres vivos deste planeta, respeitando a vida acima de tudo e preservando as condições ideais de vida na Terra.



quinta-feira, 5 de março de 2015

DISCORDANDO - SÓ UM POUCO - DE UM MESTRE



(Giovanni Battista Tiepolo - Perseu e Andrômeda)




O termo ATEU não provoca discussões. Embora, muita gente o confunda com "agnóstico", por exemplo. Ou o defina como "pessoa que não acredita em deus". Não, o ateu não é o que não acredita em deus, mas é a pessoa que afirma que deus não existe. Há, aí, um profunda diferença: não acreditar implica que possa até existir, mas eu não creio, não acredito. Negar a existência de deus ou de deuses, simplesmente, é o cerne do ateísmo. Aliás, mais nada: ateísmo é só isso.

Já a crença em deus ou deuses eu denomino teísmo ou deísmo. Para mim, as duas palavras diferem apenas quanto à origem, à raiz: a primeira tem raiz grega (théos, deus) e a segunda, raiz latina (deus, dei). Quase sempre prefiro usar a segunda, por achar que é uma palavra mais próxima do português e por ter uma origem "menos nobre", mais pé no chão, sem o contexto grego clássico, que lhe dá um ar mais solene. Mas, isso é apenas cisma minha, uma espécie de idiotismo, no sentido de idiós, próprio, ou seja, uma característica pessoal, o que não evita que alguns (principalmente alguns deístas) me considerem um idiota, no sentido de tolo. Enfim, terminologia é sempre problemática, porque envolve definições às vezes complexas e as palavras são signos extremamente mutantes e traiçoeiros.

Tudo isso para dizer que encontrei um texto de Richard Dawkins (o mestre a que me referi no título desta matéria) em que ele distingue "deísmo" de "teísmo":

"Refresquemos nossa memória sobre a terminologia. Um teísta acredita numa inteligência sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subsequente de sua criação inicial. Em muitos sistemas teístas de fé, a divindade está intimamente envolvida nas questões humanas. Atende a preces; perdoa ou pune os pecados; intervém no mundo realizando milagres; preocupa-se com boas e más ações e sabe quando as fazemos (ou até quando pensamos em fazê-las). Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cujas ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. O deus deísta nunca intervém depois, e certamente não tem interesse específico nas questões humanas. Os panteístas não acreditam num deus sobrenatural, mas usam a palavra deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa seu funcionamento. Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteístas pelo fato de que o deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado." (in Deus, um delírio; Companhia das Letras; 2007; tradução de Fernanda Ravagnani; páginas 42/43).

Bem, fico tentado a perguntar: se você não é ateu, você é um deísta, um teísta ou um panteísta?

Acho tudo isso um tanto confuso e, mais: não creio ser necessário entrar em tal detalhamento de conceitos, fica me cheirando a coisa de teólogo. Eles, os teólogos, é que adoram entrar nesse tipo de discussão, para encher a linguiça de seus livros sobre deus e deuses e enganar os trouxas com falsa erudição. Para mim, deísmo e teísmo são a mesma coisa: crença em um ser criador, um deus ou vários deuses. Nem me interessa esse papo de monoteísmo ou politeísmo, já que, na verdade, no fundo, não existe monoteísmo: quem diz que acredita num só deus está mentindo ou ignora o fato de que, na verdade, cada pessoa tem uma visão diferente do deus, ou seja, há um deus para cada indivíduo. E panteísmo é só uma das inúmeras vertentes ou distrofias da crença em deus ou em deuses.


Que me desculpe, portanto o mestre Richard Dawkins, mas continuarei a dizer que sou ateu, ou seja, nego a existência de deus ou de deuses. E o contrário disso, ou seja, a pessoa que acredita em deus ou em deuses é teísta ou deísta, indiferentemente. A mim, isso me basta.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A LÓGICA DEÍSTA







A lógica deísta é digna de comiseração, pela pobreza. Deus é bom, deus é justo, deus tudo sabe e tudo vê, nada acontece no mundo sem intervenção de deus (a célebre frase da folha que cai...), enfim, deus é o responsável por tudo, absolutamente tudo o que acontece sobre a terra, inclusive sobre o destino dos seres humanos.

Vamos ficar apenas em um dos aspectos dessa "intervenção divina": quando deus resolve punir os homens.

Se você ler a bíblia cristã, por exemplo (e o livro que usaremos como referência, por ser o cristianismo a seita predominante no Ocidente), poderá constatar que, nesse quesito, deus só interfere pessoalmente em uma única ocasião: ao expulsar Adão e Eva do paraíso, porque, presumivelmente, eles foram enganados por uma cobra falante que os levou a comer de um tal de "fruto proibido", que ninguém até hoje identificou se era mesmo um fruto ou metáfora para outros "frutos" muito mais saborosos.

A partir daí, todas as vezes que ele, o deus todo poderoso, se preocupou com o pecado humano, com as safadezas que o gênero humano - que ele criou à sua imagem e semelhança - comete por aí, ele usou de subterfúgios. Mandou um vulcão destruir cidades, inundações cobrir o "mundo", raios atingirem pessoas, pestes trucidarem populações inteiras etc., etc., etc.

Ou seja: em nenhum momento ele apareceu pessoalmente e cumpriu as ameaças que sempre fez àqueles que "pecavam". Bem, dirão os teólogos, deus é grandioso demais para aparecer diante do homem e se preocupar com puni-los pessoalmente. Ora, diremos nós, se ele é assim tão portentoso, por que se preocupa, por exemplo, com a fornicação dos homens, com quem está trepando com quem, quem está dando o quê, se foi ele mesmo que criou todas as criaturas e, especialmente o homem, com todos esses desejos "inconfessáveis", inclusive o desejo da carne, com tanta importância e poder, que é o responsável pela procriação, sem ele o homem desapareceria da face da Terra. E esse desejo incontrolável, muitas vezes, pode ter destinos bem pouco heterodoxos, a pensar no que deus queria para ele, quando nos lembramos de Adão e na Eva lá de cima, expulsos do paraíso porque foram surpreendidos enroscando-se no doce pecado da carne. Ou seja: se deus tinha em mente que o sexo só devia ser praticado entre um "adão" e uma "eva", por que permitiu que o desejo se estendesse também a seres do mesmo sexo e crescesse a ponto de haver incontáveis formas de desejo?

Além disso, se ele é assim tão grandioso, tão poderoso, por que se dignou a ir pessoalmente dar um chute no traseiro de suas primeiras criaturas? E se ele é tão justo e tão bom, por que punir essas criaturas logo no primeiro deslize? Não tem ele uma capacidade infinita de perdão? Não dizem muitos que basta uma pedido de perdão, para que qualquer pecador arrependido seja salvo? Por que deus não perguntou aos dois primeiros seres humanos se eles se arrependiam? Não consta que haja na bíblia qualquer referência a isso.

Mas, fugimos um pouco de nosso objetivo: o que eu queria mesmo dizer é como esse deus é covarde. Só teve coragem de intervir para expulsar os dois pecadores do paraíso. Nunca mais lhe ocorreu aparecer e colocar ele mesmo as coisas nos eixos, dizendo para uns e outros que pecaram: olha, aqui, meu chapa, você desobedeceu e agora vai sofrer, vai morrer, vai ver seus filhos morrerem etc.


Nada disso: a vingança desse deus tão "misericordioso" é sempre mandar uma peste, uma inundação, um vendaval, um grande incêndio, um maremoto, um vulcão, eventos que matam indiscriminadamente "pecadores" e "inocentes". E como sempre tem um ou dois (ou até mais) dentre milhares que se salvam, nas grandes tragédias, esses ainda têm a coragem de dizer: "graças a deus, eu me salvei"!