Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

MATEMOS OS DEUSES, EM VEZ DE CRIANÇAS








Se o assassinato frio de mais de cento e quarenta crianças pelo "talibã", no Afeganistão, não provoca no mundo a ira que o degolamento de reféns pelo "estado islâmico", diante das câmera de televisão, provoca, não sei mais a que estádio de barbárie vai chegar o homem do século XXI. E tudo isso em nome de uma fé, de um deus.

Desde que o homem se constituiu em sociedades, mata-se em nome do abstrato, do inexistente, da fé, da opinião, da posição política, do medo do que pensa o "inimigo", da crença do "inimigo". Mata-se por qualquer motivo, por qualquer razão. Mas o assassinato mais cruel é aquele cometido em nome de um deus, de uma fé.

Os deuses não têm sido muito gentis para com os homens. Exigem sacrifícios humanos e exigem sempre a morte do contrário, do que que não crê em seu sistema de vassalagem. E o homem, cordeiro desse deus, tem cumprido à risca os preceitos da eliminação dos outros; primeiro, de forma simbólica, em rituais e execrações que vão do banimento à condenação da alma ao martírio eterno; depois,de forma física e real, através de assassinatos, de massacres, de autos de fé ou de perseguição implacável até a eliminação total do "inimigo".

Desse desígnio não escaparam as grandes concentrações religiosas que dominam o mundo. Tenha o nome que tiver, todos os deuses exigiram sua cota de sacrifício. Poucas, muito poucas as seitas que ainda não tiveram as mãos de seus seguidores manchadas de sangue. E disse "ainda", porque reforço a minha opinião de que não há deus incruento. Não há deus que não exija sacrifício. Mais cedo ou mais tarde, a cobrança aparece, principalmente quando a seita atinge um certo grau de confiança em seus seguidores para se afirmar como a única verdade.

E essa é a primeira grande desgraça das religiões. Todas e cada uma delas se afirmam como a única detentora da verdade. Todas e cada uma delas se tornam absolutistas. Algumas até ganham, depois de muita matança e barbárie, um certo verniz de civilidade. Mas é só verniz. É só uma adaptação ao momento histórico. Ou é contingência ou consequência da perda de fiéis ou de poder, principalmente do poder político.


E essa é a segunda grande desgraça das religiões. Todas e cada uma delas querem o poder, não o poder apenas espiritual que se arrogam possuir, mas o poder terreno, aquele que permite controlar de forma total e absoluta as mentes das pessoas. E, controlada a sociedade, amoldado o "povo de deus" a seus desígnios, a conquista das fortuna das pessoas é só uma questão de habilidade.

E essa é a terceira grande desgraça das religiões. Todas e cada uma delas almejam o poder monetário, a riqueza. A princípio, através da construção de templos magníficos, para "engrandecimento da fé" e apequenamento do homem. Templos para o seu deus. Sinal de poder. Em seguida, e até simultaneamente, vem o assalto ao dinheiro, seja do pobre, do remediado ou do rico, todo dinheiro que puderem arrebanhar, para a fortuna pessoal dos membros de sua estrutura burocrática, e como forma de deter com mãos férreas o poder social e político.

Uma teocracia torna-se o exemplo perfeito do que se imagina que seria um inferno. Numa sociedade teocrática, o indivíduo não tem liberdade nem para ir ao banheiro sem as bênçãos de algum profeta ou sem prestar algum tipo de conta ao deus abstrato que domina as mentes de forma concreta através da polícia ideológica em que são transformados quase todos os cidadãos. Uns vigiam os outros. E todos são vigiados por uma estrutura de poder absoluto e cruel. Não cumprir qualquer uma das leis de deus não é crime que leva o indivíduo à cadeia ou a qualquer outro tipo de punição, leva-o à pena de morte e, mais do que à morte, à perda do perdão do deus e a consequente queima de sua alma no fogo eterno.


Portanto, a única saída do homem dessa situação de barbárie extrema é matar todos os deuses. Esse, sim, um massacre incruento, em que não correrá sangue. Como fazê-lo, sem que essa missão também se transforme em imposição absolutista e em outra sequência de crimes e massacres? Para essa pergunta, não há resposta satisfatória. No curto prazo, pouco se pode fazer. No longo, longuíssimo prazo, a educação para a negação dos deuses passa por um intenso convencimento de que a vida é o bem mais importante do homem e de que não há outra chance e, portanto, o respeito a esse bem precioso, bem como ao meio-ambiente, é condição indispensável para que o homem realmente viva e sobreviva sobre a Terra.