Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

SOCIEDADES ATEIAS







Sempre acreditei que o teísmo, ou deísmo (forma que eu prefiro), é fruto do meio em que vivemos, imposto desde o berço à nossa consciência, como um vírus num hospedeiro pacífico, nós e nossa tendência à zona de conforto. Ou seja, acreditar em um deus ou em deuses tem sido, ao longo do tempo, uma imposição artificial, embora poderosa. E mais: sempre acreditei que o ateísmo - a descrença total e absoluta na existência de deus ou de deuses - fosse a condição natural do homem. Bastava a qualquer ser pensante olhar um pouco ao redor de si e despir-se um pouco dessa malfadada ideia metafísica de que há uma essência ou uma não existência das coisas para que caísse a máscara pregada a sua cara da falácia do deísmo.

Por isso, não aceito a ideia de que o ateísmo seja uma filosofia, uma maneira de ver a vida ou uma outra espécie de crença. Ser ateu ou tornar-se ateu, para mim, significa livrar-nos de correntes que nos condenam à condição de escravos de uma maneira de ver o mundo e a vida e ganhar condição para, dentro dessa liberdade, buscarmos, aí sim, um sistema filosófico que possa orientar a nossa existência e dar-lhe sentido. Não buscar o sentido da vida ou a felicidade, que isso tudo são idiotices metafísicas, subproduto da crença estúpida em algo além da vida ou em deuses que condicionam e orientam nossa existência, em troca de favores estúpidos.

Por causa dessa forma de pensar, sempre achei, por outro lado, que é estupidez qualquer tipo de reunião ou associação de ateus, para o que quer que fosse, já que não há, entre ateus, nada que os ligue, a não ser o rótulo - fundamental, claro, mas apenas isto: um rótulo de algo absolutamente natural, como a negação em acreditar na ideia de deus ou deuses. Fora isso, temos tantas visões de mundo (Weltanshauung) quantos os poucos que ainda somos, nesse mundo "povoado de demônios". Reunirmo-nos, os ateus, para quê? Para discutir o quê? Se a ideia da inexistência de deus ou deuses é indiscutível, o que mais há que possamos buscar para nos entender? Na minha modesta opinião, nada!

Ou pelo menos, era "nada", até agora. Pois tenho cá mudado aos poucos de pensamento com relação à ideia de associações ateístas. Que, acho, têm, ultimamente, encontrado um ponto comum e absolutamente crucial para a ideia de nos constituirmos em algo parecido com uma "associação": a nossa sobrevivência!

O recrudescimento do ódio evangélico a tudo que não se pareça àquilo que os novos seguidores do malfadado cristianismo pensam tem preocupado não só a outras seitas, mas também devem ser objeto de preocupação de pessoas que, como eu, optaram por não acreditar na estupidez do deísmo e até mesmo a combater essa estupidez. Repito: combater a estupidez do deísmo, não pregar a extinção dos deístas, como eles, os deístas, fazem em relação àqueles que não professam sua crença ou, e agora é a nossa vez, não acreditam em deus.


Um mundo cada vez mais fundamentalista, seja cristão ou de qualquer outro credo baseado na existência de um ser superior e nas palavras de um profeta, tem-se tornado cada vez mais intolerante e ameaçador em termos de existência física para pessoas como nós, os ateus. Assim, a nossa associação em entidades que combatam o fundamentalismo, que busquem a tolerância não apenas para com os ateus mas também a tolerância para a diversidade de pensamento e para a diversidade humana (sexual, cultural, de cor, de qualquer coisa) pode ser a saída para começarmos a ter influência no pensamento humano e a resgatar a ideia de respeito, de absoluto respeito ao ser humano, à vida e ao ambiente em que vivemos, como forma de começarmos a ultrapassar o estádio de barbárie em que ainda vivemos.