Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

COMO FUNCIONA O CONVENCIMENTO DOS CRENTES A DAR DINHEIRO PARA A IGREJA






(Bosh - a tentação de santo Antônio)



Eu fico pasmo com a capacidade de fé em coisas absurdas que tem o homem. 




Mesmo com todo o avanço das ciências e a democratização dos meios de comunicação - rádio, televisão, jornais, revistas, internet - as pessoas continuam se enganando e sendo enganadas como na Idade Média.




A estupidez aparece nos detalhes de publicações como, por exemplo, os grandes jornais diários: todos eles mantêm uma coluna de horóscopo. Sabe-se há muitos e muitos anos que previsões baseadas nos astros não passam de ficção e que a maioria dos horoscopistas são estagiários imaginativos a escrever bobagens sobre signos. E todo mundo acredita nessas bobagens. Comum na conversa diária as pessoas quererem saber o signo umas das outras e buscarem coincidências de personalidade entre aquelas que nascem sob o mesmo signo. E não adianta alguém dizer que não acredita, os argumentos são veementes e o descrente passa por ser um pobre coitado que não crê na força do destino e em outras bobagens correntes.




Concorrem com os horoscopistas as "ciganas", as "madames", os "pais de santos"  que usam de outros artifícios para ler o destino das pessoas: incorporação de espíritos, búzios, borra de café, leitura das linhas das mãos e muitos outros artifícios que, de verdade mesmo, só têm a intenção de tirar algum dinheiro dos incautos ou das incautas que procuram esse tipo de espertalhões.




Dizemo-nos civilizados, mas somos exatamente iguais aos "não civilizados" que acreditam em seus pajés e gurus que preveem, por exemplo, a chegada da chuva, ao analisar de forma acurada indícios da natureza para transformá-los em conhecimento cabalístico e poder de se impor entre seus pares e obter reconhecimento. E a "dança da chuva" do homem moderno e dito "civilizado" apenas se sofistica na escolha dos meios, mas a intenção e a crença são exatamente as mesmas.




A face humana é algo entranhado em nosso cérebro de tal forma, que somos capazes de reconhecimento de outro ser humano em quaisquer circunstâncias. Isso é absolutamente algo natural e é a maneira pela qual a natureza estabelece, para nós, a fronteira entre a raça humana e as demais raças que habitam a terra. Ou entre etnias. O caçador primitivo tinha que saber em segundos se se encontrava diante de um igual ou do inimigo. E esse reconhecimento das feições humanas transfere-se, hoje, para todo tipo de mancha, borrão, conjunto de linhas e traços com que deparamos a todo momento. Assim, é possível reconhecer rostos humanos em sombras de uma foto do planeta Marte, como é possível reconhecer rostos humanos em borrões de tinta numa janela mal pintada, vista essa última como uma imagem de uma santa ou da mãe de um deus. E então, milagres acontecem: peregrinações, rezas, curas milagrosas e outras bobagens, frutos todas elas da capacidade que as pessoas têm se enganar e de gostarem de ser enganadas, por vários motivos, muito além dessa breve análise da capacidade humana de acreditar em coisas estúpidas.




Quando assistimos a um filme, a uma novela de televisão, quando vamos ao teatro, estamos diante da representação de seres humanos por outros seres humanos, ou seja, estamos diante de "personagens" que não são e não podem absolutamente ser aquelas que estão diante de nossos olhos. Mas, pela perícia dos atores, acreditamos que estamos, sim, diante, por exemplo, de Hamlet, e não do fulano que o traz para nossos sentidos. Técnica teatral. Apenas técnica. E os bons atores são justamente aqueles que melhor conseguem nos enganar, ou seja, que melhor representam as personagens escritas e descritas nas peças e roteiros. Todos sabemos que são personagens e que os atores que os representam são muito diferentes delas, até fisicamente. No entanto, o ator ou a atriz que representam um vilão excessivamente malvado numa novela de televisão acabam sendo destratados pelo público, nas ruas, ainda que as pessoas os admirem por sua excelente caracterização.




Diante de um símbolo, somos naturalmente compelidos a entrar no jogo e a nos encantar com seu significado, muito mais do que com o seu significante. Ou seja, adoramos a imagem da santa, por exemplo, por aquilo que ela representa para nós, e não por ser um grotesco arremedo de ser humano moldado com barro pintado.




Por isso, as religiões, todas as religiões, têm seus ritos, suas encenações e vivem desse teatro armado para engolfar nossos sentidos nos significados que seus próceres querem nos impingir, através de signos potentes e muito bem elaborados e experimentados através dos tempos.




Templos majestosos, altares, vestimentas, imagens, incensos, flores, gestos, danças, pinturas, mantras, música, silêncios, são tudo isso encenações poderosas a serviço da mais poderosa forma de comunicação humana, a palavra. E a palavra é repetida e repetida e repetida, de muitas maneiras, à exaustão. São sempre os mesmos conceitos, são sempre as mesmas ideias, são sempre os mesmos conselhos, reforçados pelo mesmo discurso em todos os templos, em todos os tempos: muda-se o tom, mudam-se os significantes (as palavras), mas o significado é sempre o mesmo. Convence-se pela repetição. Que anestesia a lógica, o racional. Atingem-se as emoções humanas mais profundas e seus maiores anseios: a necessidade de encontrar amparo para as dores do mundo, reais ou fictícias.




A encenação é parte integrante do processo de convencimento praticado por todas as religiões. Manipula-se a realidade para emocionar e "religar" o homem à divindade. Desde a missa católica até os cultos de candomblé, encenar é mote. E, se necessário, um pouco de prestidigitação também. Assim, os "milagres" se materializam, de forma inequívoca aos olhos do crente, que não percebe, como não percebemos no palco, os truques dos mágicos da crença. A palavra mágica é "fé": para tudo, no processo religioso de convencimento, é necessário "fé". E o deus ou a divindade julgará o merecimento da "fé" de cada um. Portanto, a responsabilidade é toda do deus ou da divindade. Lavam-se as mãos, como, aliás, o fez de maneira mais contundente uma insigne personagem da bíblia em relação ao fundador do cristianismo.




As igrejas pentecostais, ou niilistas (fundadas no princípio do terror ao fogo do inferno e, portanto, de forte apelo salvacionista) levaram ao cúmulo da falta de escrúpulos essa encenação, promovida pelos ditos "pastores". Como aboliram cultos sofisticados e o culto às imagens dos católicos, investiram pesado na arte do ator, o "pastor". Este deve ter carisma, capacidade oratória e uma profunda fé (verdadeira) no poder da palavra. Se simplificaram os métodos da encenação, sofisticaram os métodos do convencimento pela palavra. Por isso a "palavra" ganha, nesse tipo de culto, um valor extraordinário. Tudo passa pela "palavra" e a "palavra" está na bíblia, interpretada com grande sagacidade de acordo com os interesses da igreja. O líder denomina-se "pastor" (e alguns até mesmo "bispos", numa hierarquia conhecida e testada pela igreja romana), porque os fiéis são o seu rebanho, o rebanho que precisa ser salvo do pecado, muito bem representado pela figura assustadora do demônio, e comprar, literalmente, o seu passaporte para o paraíso. Ou seja, o rebanho precisa mostrar desprendimento em relação à divindade, dividindo com ela todos os seus bens materiais, principalmente contribuindo em espécie (dinheiro vivo) para as tais "obras" da igreja. Algumas até possuem um arremedo de ação social voltada para os mais necessitados, mas como o dinheiro arrecadado não é contabilizado e não paga impostos, não possível saber se vai mesmo para as obras de caridade, o que, em 99% dos casos, é quase todo desviado para a manutenção da vida mundana dos "pastores", todos eles muito ricos, muito bem de vida, com capacidade financeira até para comprar redes de televisão ou espaços caríssimos na mídia, para divulgação de sua igreja; com capacidade financeira para possuírem mansões e dinheiro no exterior; com capacidade financeira para comprarem fazendas, haras e realizarem viagens internacionais para destinos paradisíacos. Sim, o dinheiro compra o paraíso... para os "pastores", e um paraíso muito terreno. Enquanto os pobres seguidores terão de se consolar com a esperança do paraíso colocada na mão de deus, para depois de sua morte.




O convencimento pela "palavra" implica um extremo preparo de ator: o "pastor" incorpora muito bem seu papel e, com isso, eletriza plateias com o seu dom de oratória, com exorcismos muito bem encenados ou induzidos por crentes que entram, realmente, em transe, diante do poder e do carisma do pregador; com milagres encenados ou induzidos aos mais crentes, que se julgam curados de alguma doença, pela força de vontade incrementada a um grau máximo pela "palavra", e saem gritando "aleluia, aleluia", antes de voltarem à dura realidade dos fármacos, da invalidez, da tristeza, enfim.




Praticam, pois, esses "pastores" e "bispos" um estelionato religioso extremamente sofisticado, porque as denúncias são sempre desqualificadas pela ideia de que "o povo de deus" é sempre perseguido e precisa redobrar sua crença, sua fé e suas contribuições, para superar as investidas do demônio. E mais: ancorados na ideia moderna de "liberdade religiosa", julgam-se e tornam-se quase intocáveis. Mesmo que os escândalos envolvendo ilustres "pastores" e "bispos/as" se multipliquem, a mídia, em geral conivente com essas práticas, porque seus componentes muitas vezes também fazem parte da crenças nessas instituições estelionatárias, acaba não dando a devida atenção aos fatos e isolam o comportamento dos que praticaram algum delito, absolvendo automaticamente todos os outros. 




Possuir um templo religioso, quando se tem o "dom" de ser "pastor" e o preparo necessário para o exercício da função, é um ponto máximo na carreira dos que se envolvem com a cúpula dessas organizações criminosas, pois representa auferir lucros extraordinários, suficientes para cobrir todos os desejos bastante mundanos de qualquer pessoa.




Assim é porque assim parece ser: o uso da nobre arte do ator a serviço de mais um golpe, o pior deles e o mais sofisticado, porque praticamente garante a impunidade de quem o pratica. Mas é tudo, absolutamente tudo, prestidigitação, arte, arte de ganhar dinheiro à custa da credulidade de um povo sofrido, que entrega parte do seu salário nas mãos de indivíduos inescrupulosos, criminosos que deviam, sim, curtir muitos anos de cadeia, pelo tipo de crime que praticam. Nem o estelionatário que, também ele um ator, engana o "pato" em golpes cotidianos, usando para isso a própria "esperteza" do outro, com promessas de lucros, comete crime tão bárbaro, porque este não tem deus a seu lado, e o outro, o "pastor" usa e abusa da necessidade que têm os homens de crer em algum tipo de divindade, para minorar sua trajetória na terra e conquistar um lugar no céu, abusando de sua capacidade de crer em coisas absurdas.