Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

domingo, 7 de abril de 2013

SISTEMAS ÉTICOS








Já disse e repito mil vezes, se preciso for: sistemas éticos e de convivência humana nada têm a ver com religião. A religião pretende ser uma ponte entre os homens e uma pretensa divindade, inventada para acalmar ou dar falsas esperanças ao desespero humano, quando não compreende a vida em sua plenitude material. Já os sistemas éticos têm a ver com a relação do homem com ele mesmo, na convivência dos diferentes, no estabelecimento do respeito à vida, ao outro e à natureza, na busca da compreensão da vida que temos, palpável, material, sem metafísicas, sem invenções místicas, sem cultos a um deus ou a deuses.

Os sistemas éticos sobrepõem-se, portanto, à aceitação de divindades ou a quaisquer cultos inventados pelo homem. E há sistemas éticos em todas as religiões, com maior ou menor importância, já que a maioria das religiões, ao estabelecerem seus sistemas éticos o fazem com o viés da espiritualidade e sob os auspícios do deus, o que os tornam restritos, incompletos, cheios de inverdades ou com doutrinas anti-humanas, como a aceitação da lei do olho por olho e do dente por dente, da maioria de seus códigos, ou da discriminação social de camadas da própria sociedade, por impuras, ou, ainda, a suprema irresponsabilidade - que os torna de forma absoluta anti-humanos -, a exclusão de todos aqueles que não seguem os dogmas do deus, do seu deus, exprobrando-os e jogando-os no amplo espectro de seres malditos e condenados.

Dentre os centenas, talvez milhares, de códigos de éticas ligados ou não ao deísmo, há um que chama minha atenção e até já me dediquei a ele en passant - e retorno agora, ainda sem um grande aprofundamento: refiro-me ao código de ética do budismo.

Sem dúvida, nele há elementos sedutores, como o seu profundo humanismo, a pregação do respeito à vida, ao outro e à natureza e, principalmente, a moderação, ou ponderação, que leva naturalmente a uma perspectiva de busca da compreensão e do conhecimento. É, de certa forma, admirável o budismo em seus princípios. Há, porém, um senão, um grande senão: a apropriação da filosofia desse belo código de ética por uma casta estruturada de sacerdotes. Ou seja, a partir do momento em que se erigem conventos e comunidades budistas, segregadas de outras comunidades humanas, dominadas por um bando de indivíduos que se dizem os donos ou herdeiros do conhecimento do fundador, Buda, sua credibilidade decresce na mesma proporção que outras seitas.

Esclareço: quando um sistema ético se instrumentaliza em elementos externos, como cerimônias, cânticos e trajes, ele se perde nas entranhas do sistema burocrático e do exclusivismo típicos de seitas deístas que têm por objetivo manter uma nomenklatura (no pior sentido possível do termo) superior aos demais e vivendo da exploração de seus seguidores. Renego, com todas as minhas forças, qualquer sistema ético que se subordine a cultos ou cerimônias, que seja apropriado por indivíduos que se julgam donos desse saber, sejam eles chamados de padres, pastores, mestres, gurus, aiatolás, rabinos, pajés, pais de santos ou quaisquer outros nomes que a imaginação humana venha a inventar, para ludibriar os demais e se tornarem - esses indivíduos - os superiores e orientadores da plebe inculta, os seguidores abestalhados como rebanho, como gado.

Admiro, sim, e reitero isso, em sua maioria, os princípios do código de ética budista, mas repilo veementemente o budismo instrumentalizado e imbecilizado por sacerdotes e simpatizantes idiotizados a cantar e dançar pelas ruas das cidades do mundo inteiro. Isso é uma estupenda bobagem, como são uma estupenda bobagem todos os cultos de todas as religiões. Ou alguém seria estúpido o suficiente para fundar ou seguir uma religião com cultos e altares e danças e sacerdotes que tivesse como base  as ideias de um determinado filósofo e como seu profeta supremo esse mesmo filósofo, entronizado como semideus, por exemplo Nietzsche?

Pode haver, é claro, escolas ou até mesmo associações que busquem estudar e difundir um determinado sistema ético, mas sem que isso seja apropriado por quem quer que seja, em termos de culto ou, principalmente, de hierarquia, que não seja apenas a hierarquia do conhecimento, quando um indivíduo que mais estudou e aprofundou esse conhecimento ajuda (eu disse "ajuda") aos demais no descobrimento e entendimento desse conjunto filosófico.

Enfim, pode-se seguir um sistema ético ou adotar alguns princípios éticos de qualquer religião ou seita, desde que não se aceite sua instrumentalização por qualquer tipo de casta hierarquizada. Quando isso acontece, a deturpação e, portanto, a deterioração desse sistema torna-se inevitável, sujeito a cair - e isso geralmente acontece - na bestialidade e estupidez da seita.




Um comentário:

  1. Embora eu tenha uma ou outra discordância pontual, considero o texto bem claro e coeso.
    Obrigado pela resposta.

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