Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

terça-feira, 19 de março de 2013

SER ATEU




Ndeveni - afrikan painter



Já abordei esse tema. Não importa. Há sempre alguma ideia a acrescentar. Há sempre um novo pensamento ou uma nova abordagem.

E não me cobre coerência. Cobre-me evolução. Evolução não no sentido de melhoria, que nunca essa palavra teve, mas no sentido de mudança. De aprofundamento ou de busca de um novo rumo para a mesma ideia.

Ser ateu não é dizer "eu não creio em deus ou em deuses". Porque aquele que isso afirma não é ateu convicto, mas apenas um indivíduo que não possui a crença em algo que pode ou não existir. É o que, no senso comum, se chama de agnóstico. A existência de deus ou deuses é-lhe indiferente. Se eles - deus ou os deuses - não fazem parte de suas convicções, isso não o torna um "inimigo" da crença. Apenas um observador desconfiado.

Ser ateu é dizer: "nego a existência de deus ou de deuses". E mais: "nego qualquer filosofia baseada na metafísica". Nada há além do que a vida e o mundo nos oferecem, em termos de realidade.

O verdadeiro ateu, quando indagado sobre suas "crenças" - sim, porque as pessoas acham que devemos substituir uma crença por outra: se você não crê em deus, em que você crê? - não diz, por exemplo: "eu creio na vida". Porque a vida não está aí para você crer ou não nela. Ela simplesmente está. Não depende de sua crença.

Também não deve dizer: "creio na ciência". Ciência não objeto de crença. Ciência é apenas um instrumento de compreensão da realidade. Pode acertar ou errar. Mas não depende de crenças, nem de nenhum culto, nem que se acredite nela. Não se cultua a ciência, faz-se ciência, estuda-se ciência ou o que dela resulta. Porque, principalmente, a ciência nasce da dúvida e, depois, da observação e, mais adiante, do experimento. E só.

Ser ateu não é substituir uma crença por uma não-crença. Ser ateu é ter o pensamento liberto da estupidez de crenças que entulham nosso cérebro e o direcionam para uma vida de escravo. Todo crente  é escravo das ideias, das coisas e das estruturas de pensamento nas quais ele crê e rende culto e perde tempo precioso de vida para alimentar essa crença. Porque a ideia de crença implica necessariamente a ideia de buscar sempre justificativa junto ao objeto da crença para a sua existência.

A não-crença como oposição à crença também é uma estrutura de raciocínio ou de pensamento que entulha nossas ideias e perturba nosso viver. O não-crente precisa estar sempre justificando sua não-crença, em termos ontológicos.

Outra cobrança aos ateus: por um sistema de ética. Ora, ética nada tem a ver com crenças, com deus ou deuses, com religiões. Ética é conduta humana. Por exemplo: se você gosta de ajudar as pessoas, faça-o, independentemente de ser ateu ou crente. A solidariedade não está para o ateu assim como está para o crente. Há uma questão básica de valores entre as atitudes solidárias do ateu e as atitudes solidárias do crente. E esse valor está em que o crente pratica a solidariedade por aquilo que ela vale para seu deus ou para sua crença. Ao passo que o ateu pratica a solidariedade por aquilo que ela vale em relação à própria vida, para salvar a vida ou garantir a sobrevivência de um semelhante. Nada mais.

Assim, todas as condutas humanas passam pelo crivo de um sistema ético que independe de suas crenças. Cultuar "mandamentos" como se fossem ordens de um deus é tão estúpido quanto a ideia de que vivemos porque algum ser superior nos deu a vida. Principalmente porque esses mandamentos - ou quaisquer outros sistemas éticos baseados em princípios metafísicos ou deístas - nunca impediram que os homens os transgredissem. O ser humano não precisa de freio para viver e respeitar o outro. Precisa apenas - e entenda-se esse "apenas" como a mais profunda ironia que se conheça - civilizar-se.




quarta-feira, 6 de março de 2013

PARA AS RELIGIÕES, TUDO É PERMITIDO







Eu não acredito na inocência das religiões.

Religião é forma de comércio e dominação, nada mais. São instituições cujos dirigentes máximos estão pouco se importando com o povo. Preocupam-se com seu bem estar, com sua condição de domínio de mentes e de carteiras recheadas.

Para dominar,  usam dos mais velhos truques, como inventar milagres, vender o inefável e o invisível como se fossem objetos de consumo, mentir descaradamente para seus adeptos, enganar, implantar falsos silogismos e, sobretudo, manter seus fiéis na mais completa ignorância.

Alimentam o fanatismo e dele fazem as religiões o seu meio de sustento. Utilizam todas as formas de prestidigitação para fazer crer que há um deus que exige fidelidade e, mais do que fidelidade, templos majestosos que consumam dinheiro, muito dinheiro; um deus brutamontes a brandir seu tacape contra os que os contrariam, ou seja, contra todos que não sigam sua cartilha de imposições e doações.

Não há igreja, crença, seita que sobrevivam sem dinheiro. Ele é o motor, a motivação, a causa da existência de milhares líderes religiosos pelo mundo afora, uma hidra de milhões de pernas e braços e bocas ávidas do rico dinheirinho do povo, a absorver a capacidade de pensar e o resultado do trabalho desse povo, sugando sua energia, para torná-lo escravo.

Crer em deus é aceitar uma forma de escravidão, a mais cruel de todas, porque suas correntes não podem ser quebradas por um ato de força, mas pela força da vontade de se libertar, o que é quase impossível, diante do medo que a religião impõe ao seu seguidor, o medo de algo que não existe mas que se materializa com o poder de argumentação dos astutos líderes, através de mentiras repetidas pelos tempos afora, como mantras entorpecedores que impedem qualquer reação. A palavra chave é "fé": a corrente mais cruel a prender a mente das pessoas. Essa palavrinha contém em si a mágica da inatividade: quando ela se impõe, a lógica desaparece.

Quando o indivíduo diz para si mesmo "eu creio", ele está entregando sua capacidade de pensar a seu dono, o líder religioso, e está entregando sua vida, seus bens, sua liberdade. Libertar tal escravo é tarefa gigantesca, quiçá impossível, porque qualquer argumentação, por mais lógica que seja, esbarra na fé inabalável nos meandros perniciosos da metafísica, daquilo que se denomina espiritualidade, algo que não se vê, não se mede, não se pesa, mas que traz em si a estupidez da esperança de uma vida melhor... depois da morte.

O edifício deísta - construído a partir da crença - tornou-se de tal forma complexo, de tal forma um emaranhado de falsos argumentos que se enredam e se completam, que essa teia monstruosa de uma aranha metafísica cobriu e enegreceu a mente humana sem qualquer possibilidade de achar o fio da meada para que se possa deslindar todas as mentiras arquitetadas e repetidas ao longo dos milênios.

O ateísmo não tem a menor chance contra a fé. Porque o ateísmo é liberdade e a fé mantém o homem escravo de um deus que ele julga não poder contrariar, sob pena de castigos severos.

Assim, a desconstrução do discurso deísta torna-se uma tarefa inglória, com remotas possibilidades de sucesso, em curto ou, mesmo, em médio prazo. Talvez daqui a alguns milênios, quando a ciência finalmente fizer aquilo que parece impossível - que é provar a inexistência de algo que não existe, um total e absurdo paradoxo - é que a humanidade comece por fim a libertar-se do jugo do deus que ela criou para escravizá-la através da forma mais terrível de escravidão, através da força da dinheiro e do poder sobre as demais pessoas.

Não, não creio na inocência de nenhuma religião, porque, para as religiões, tudo é permitido. E quem o permite são os escravos que elas escravizam.