Darwin, por Toni d'Agostinho

Este blog homenageia o cientista Charles Darwin (acima, no desenho de Toni d'Agostinho) que desvendou a origem da vida.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

COMO FUNCIONA O CONVENCIMENTO DOS CRENTES A DAR DINHEIRO PARA A IGREJA






(Bosh - a tentação de santo Antônio)



Eu fico pasmo com a capacidade de fé em coisas absurdas que tem o homem. 




Mesmo com todo o avanço das ciências e a democratização dos meios de comunicação - rádio, televisão, jornais, revistas, internet - as pessoas continuam se enganando e sendo enganadas como na Idade Média.




A estupidez aparece nos detalhes de publicações como, por exemplo, os grandes jornais diários: todos eles mantêm uma coluna de horóscopo. Sabe-se há muitos e muitos anos que previsões baseadas nos astros não passam de ficção e que a maioria dos horoscopistas são estagiários imaginativos a escrever bobagens sobre signos. E todo mundo acredita nessas bobagens. Comum na conversa diária as pessoas quererem saber o signo umas das outras e buscarem coincidências de personalidade entre aquelas que nascem sob o mesmo signo. E não adianta alguém dizer que não acredita, os argumentos são veementes e o descrente passa por ser um pobre coitado que não crê na força do destino e em outras bobagens correntes.




Concorrem com os horoscopistas as "ciganas", as "madames", os "pais de santos"  que usam de outros artifícios para ler o destino das pessoas: incorporação de espíritos, búzios, borra de café, leitura das linhas das mãos e muitos outros artifícios que, de verdade mesmo, só têm a intenção de tirar algum dinheiro dos incautos ou das incautas que procuram esse tipo de espertalhões.




Dizemo-nos civilizados, mas somos exatamente iguais aos "não civilizados" que acreditam em seus pajés e gurus que preveem, por exemplo, a chegada da chuva, ao analisar de forma acurada indícios da natureza para transformá-los em conhecimento cabalístico e poder de se impor entre seus pares e obter reconhecimento. E a "dança da chuva" do homem moderno e dito "civilizado" apenas se sofistica na escolha dos meios, mas a intenção e a crença são exatamente as mesmas.




A face humana é algo entranhado em nosso cérebro de tal forma, que somos capazes de reconhecimento de outro ser humano em quaisquer circunstâncias. Isso é absolutamente algo natural e é a maneira pela qual a natureza estabelece, para nós, a fronteira entre a raça humana e as demais raças que habitam a terra. Ou entre etnias. O caçador primitivo tinha que saber em segundos se se encontrava diante de um igual ou do inimigo. E esse reconhecimento das feições humanas transfere-se, hoje, para todo tipo de mancha, borrão, conjunto de linhas e traços com que deparamos a todo momento. Assim, é possível reconhecer rostos humanos em sombras de uma foto do planeta Marte, como é possível reconhecer rostos humanos em borrões de tinta numa janela mal pintada, vista essa última como uma imagem de uma santa ou da mãe de um deus. E então, milagres acontecem: peregrinações, rezas, curas milagrosas e outras bobagens, frutos todas elas da capacidade que as pessoas têm se enganar e de gostarem de ser enganadas, por vários motivos, muito além dessa breve análise da capacidade humana de acreditar em coisas estúpidas.




Quando assistimos a um filme, a uma novela de televisão, quando vamos ao teatro, estamos diante da representação de seres humanos por outros seres humanos, ou seja, estamos diante de "personagens" que não são e não podem absolutamente ser aquelas que estão diante de nossos olhos. Mas, pela perícia dos atores, acreditamos que estamos, sim, diante, por exemplo, de Hamlet, e não do fulano que o traz para nossos sentidos. Técnica teatral. Apenas técnica. E os bons atores são justamente aqueles que melhor conseguem nos enganar, ou seja, que melhor representam as personagens escritas e descritas nas peças e roteiros. Todos sabemos que são personagens e que os atores que os representam são muito diferentes delas, até fisicamente. No entanto, o ator ou a atriz que representam um vilão excessivamente malvado numa novela de televisão acabam sendo destratados pelo público, nas ruas, ainda que as pessoas os admirem por sua excelente caracterização.




Diante de um símbolo, somos naturalmente compelidos a entrar no jogo e a nos encantar com seu significado, muito mais do que com o seu significante. Ou seja, adoramos a imagem da santa, por exemplo, por aquilo que ela representa para nós, e não por ser um grotesco arremedo de ser humano moldado com barro pintado.




Por isso, as religiões, todas as religiões, têm seus ritos, suas encenações e vivem desse teatro armado para engolfar nossos sentidos nos significados que seus próceres querem nos impingir, através de signos potentes e muito bem elaborados e experimentados através dos tempos.




Templos majestosos, altares, vestimentas, imagens, incensos, flores, gestos, danças, pinturas, mantras, música, silêncios, são tudo isso encenações poderosas a serviço da mais poderosa forma de comunicação humana, a palavra. E a palavra é repetida e repetida e repetida, de muitas maneiras, à exaustão. São sempre os mesmos conceitos, são sempre as mesmas ideias, são sempre os mesmos conselhos, reforçados pelo mesmo discurso em todos os templos, em todos os tempos: muda-se o tom, mudam-se os significantes (as palavras), mas o significado é sempre o mesmo. Convence-se pela repetição. Que anestesia a lógica, o racional. Atingem-se as emoções humanas mais profundas e seus maiores anseios: a necessidade de encontrar amparo para as dores do mundo, reais ou fictícias.




A encenação é parte integrante do processo de convencimento praticado por todas as religiões. Manipula-se a realidade para emocionar e "religar" o homem à divindade. Desde a missa católica até os cultos de candomblé, encenar é mote. E, se necessário, um pouco de prestidigitação também. Assim, os "milagres" se materializam, de forma inequívoca aos olhos do crente, que não percebe, como não percebemos no palco, os truques dos mágicos da crença. A palavra mágica é "fé": para tudo, no processo religioso de convencimento, é necessário "fé". E o deus ou a divindade julgará o merecimento da "fé" de cada um. Portanto, a responsabilidade é toda do deus ou da divindade. Lavam-se as mãos, como, aliás, o fez de maneira mais contundente uma insigne personagem da bíblia em relação ao fundador do cristianismo.




As igrejas pentecostais, ou niilistas (fundadas no princípio do terror ao fogo do inferno e, portanto, de forte apelo salvacionista) levaram ao cúmulo da falta de escrúpulos essa encenação, promovida pelos ditos "pastores". Como aboliram cultos sofisticados e o culto às imagens dos católicos, investiram pesado na arte do ator, o "pastor". Este deve ter carisma, capacidade oratória e uma profunda fé (verdadeira) no poder da palavra. Se simplificaram os métodos da encenação, sofisticaram os métodos do convencimento pela palavra. Por isso a "palavra" ganha, nesse tipo de culto, um valor extraordinário. Tudo passa pela "palavra" e a "palavra" está na bíblia, interpretada com grande sagacidade de acordo com os interesses da igreja. O líder denomina-se "pastor" (e alguns até mesmo "bispos", numa hierarquia conhecida e testada pela igreja romana), porque os fiéis são o seu rebanho, o rebanho que precisa ser salvo do pecado, muito bem representado pela figura assustadora do demônio, e comprar, literalmente, o seu passaporte para o paraíso. Ou seja, o rebanho precisa mostrar desprendimento em relação à divindade, dividindo com ela todos os seus bens materiais, principalmente contribuindo em espécie (dinheiro vivo) para as tais "obras" da igreja. Algumas até possuem um arremedo de ação social voltada para os mais necessitados, mas como o dinheiro arrecadado não é contabilizado e não paga impostos, não possível saber se vai mesmo para as obras de caridade, o que, em 99% dos casos, é quase todo desviado para a manutenção da vida mundana dos "pastores", todos eles muito ricos, muito bem de vida, com capacidade financeira até para comprar redes de televisão ou espaços caríssimos na mídia, para divulgação de sua igreja; com capacidade financeira para possuírem mansões e dinheiro no exterior; com capacidade financeira para comprarem fazendas, haras e realizarem viagens internacionais para destinos paradisíacos. Sim, o dinheiro compra o paraíso... para os "pastores", e um paraíso muito terreno. Enquanto os pobres seguidores terão de se consolar com a esperança do paraíso colocada na mão de deus, para depois de sua morte.




O convencimento pela "palavra" implica um extremo preparo de ator: o "pastor" incorpora muito bem seu papel e, com isso, eletriza plateias com o seu dom de oratória, com exorcismos muito bem encenados ou induzidos por crentes que entram, realmente, em transe, diante do poder e do carisma do pregador; com milagres encenados ou induzidos aos mais crentes, que se julgam curados de alguma doença, pela força de vontade incrementada a um grau máximo pela "palavra", e saem gritando "aleluia, aleluia", antes de voltarem à dura realidade dos fármacos, da invalidez, da tristeza, enfim.




Praticam, pois, esses "pastores" e "bispos" um estelionato religioso extremamente sofisticado, porque as denúncias são sempre desqualificadas pela ideia de que "o povo de deus" é sempre perseguido e precisa redobrar sua crença, sua fé e suas contribuições, para superar as investidas do demônio. E mais: ancorados na ideia moderna de "liberdade religiosa", julgam-se e tornam-se quase intocáveis. Mesmo que os escândalos envolvendo ilustres "pastores" e "bispos/as" se multipliquem, a mídia, em geral conivente com essas práticas, porque seus componentes muitas vezes também fazem parte da crenças nessas instituições estelionatárias, acaba não dando a devida atenção aos fatos e isolam o comportamento dos que praticaram algum delito, absolvendo automaticamente todos os outros. 




Possuir um templo religioso, quando se tem o "dom" de ser "pastor" e o preparo necessário para o exercício da função, é um ponto máximo na carreira dos que se envolvem com a cúpula dessas organizações criminosas, pois representa auferir lucros extraordinários, suficientes para cobrir todos os desejos bastante mundanos de qualquer pessoa.




Assim é porque assim parece ser: o uso da nobre arte do ator a serviço de mais um golpe, o pior deles e o mais sofisticado, porque praticamente garante a impunidade de quem o pratica. Mas é tudo, absolutamente tudo, prestidigitação, arte, arte de ganhar dinheiro à custa da credulidade de um povo sofrido, que entrega parte do seu salário nas mãos de indivíduos inescrupulosos, criminosos que deviam, sim, curtir muitos anos de cadeia, pelo tipo de crime que praticam. Nem o estelionatário que, também ele um ator, engana o "pato" em golpes cotidianos, usando para isso a própria "esperteza" do outro, com promessas de lucros, comete crime tão bárbaro, porque este não tem deus a seu lado, e o outro, o "pastor" usa e abusa da necessidade que têm os homens de crer em algum tipo de divindade, para minorar sua trajetória na terra e conquistar um lugar no céu, abusando de sua capacidade de crer em coisas absurdas.


terça-feira, 9 de abril de 2013

AS CRUZADAS DA GRANA







Relembremos a História: o cristianismo nasceu sob a perseguição do Império Romano e muitos dos primeiros cristãos foram jogados aos leões das arenas romanas. Aprenderam a lição. E quando Constantino se converteu à nova seita, os cristãos souberam de forma magistral aplicar a lição aprendida: de perseguidos a perseguidores, não tiverem dó nem piedade de seus inimigos. A fé havia que ser imposta a ferro e fogo ao mundo, para salvá-lo do fogo do inferno. E assim foi.

Cruzadismo: está no DNA do cristianismo. Primeiro, foram as cruzadas contra os mouros (milhões de mortes); depois, a cruzada contra as bruxas ((milhares de mulheres mortas); aí, veio a cruzada contra os gentios do novo mundo, as Américas (milhões de mortos)... Eram cruzadas que defendiam os interesses econômicos dos povos dominantes a que sempre se associaram os cristãos em sua forma institucional e os interesses "religiosos" (e também econômicos, claro) da Igreja Católica Apostólica Romana (o nome "apostólica" define o cruzadismo, a difusão da "fé" a ferro e fogo).

As fogueiras da inquisição foram apagadas. O tempo passou. A ICAR perdeu pouco a pouco o seu grande poder, a princípio lentamente, desde as primeiras apostasias de Lutero, Calvino e outros. Surgiram novas seitas. Surgiram novas formas de cruzadismo, com a era das comunicações. A ICAR ficou para trás.

Os novos "pastores" (apóstatas da ICAR) inauguraram, já no final do século XX,  uma nova forma de cruzadismo: o do dinheiro, sem disfarces. Para isso, precisam de fiéis, de muitos fiéis. E querem conquistá-los a ferro e fogo (para pagarem dízimos e fazerem "doações espontâneas" nos cultos). Vale, então, qualquer interpretação absurda da bíblia; vale dizer o que uma parte, talvez uma grande parte, de seus seguidores gosta de ouvir: pregações apocalípticas que incluem exorcizar demônios e maldizer infiéis. Tudo em nome de uma fé que cure os males do mundo, mas principalmente garanta um lugar no paraíso. E um lugar no paraíso é caro, exige investimento.  As falsas curas, o alívio imediato das dores, o consolo do sofrimento custam dinheiro. Muito dinheiro. E os novos "pastores" não se envergonham de dizer que deus olha - e com olho grande - por aqueles que sabem doar, que sabem se desprender dos bens materiais. Claro, o intuito é um só: arrancar dinheiro dos seguidores, mais nada. Uma simples transferência de renda, do bolso muitas vezes bem magros de rendimentos dos sofredores para o reino das casas, carros, fazendas, viagens, enfim, para o reino da vida fácil dos "pastores", já que o seu deus lhes deu o dom da palavra, da palavra da enganação, da palavra que, aos berros, põe para correr o demônio ao mesmo tempo que alivia dores e males do corpo de milhões idiotizados pela palavra, um gado submisso que vai para o abatedouro de templos suntuosos construídos com a fome do dia a dia, como se fosse para o paraíso. Aceitam o jogo de cena, esses coitados. Iludem-se com o teatro de quinta, armado pelos "pastores" e "bispos" e seus acólitos, no circo de prestidigitação que suplanta os efeitos especiais de qualquer espetáculo do Cirque du Soleil. E enchem as sacolas dos "pastores" de dinheiro, de cheques pré-datados ou, até mesmo, suprassumo da cara de pau, passam seus cartões de crédito nas suas maquininha infernais. Deus é moderno. Deus up-date. Up-datíssimo. Lá em cima, o "criador" deve olhar com satisfação a sua grande criação: o capitalismo que lhe assegura acesso às bolsas de valores, às grandes redes de comunicação, às grandes fortunas construídas com o pinga-pinga incessante do suor e sangue de seus seguidores. Um deus ex-machina, não mais de barbas brancas e olhar bondoso, mas um deus com a chave do cofre nas mãos, a passear de jatinho executivo pelos paraísos, sim, paraísos, paraísos fiscais!

Por isso, não é perseguição religiosa, como querem fazer crer agora os defensores do deputado que afirmou que deus matou o Beatle Jonh Lennon com três tiros, um em nome de cada uma de suas divindades, um em nome do pai,  outro do filho e mais outro do espírito santo;  o deputado que disse que deus meteu a mão no manche do avião dos garotos da banda "Mamonas Assassinas" para jogá-lo contra a serra, porque estava insatisfeito com os palavrões de suas músicas; o deputado que disse que a África é um continente amaldiçoado por esse mesmo deus e, depois, retificou, dizendo que a maldição não atinge a todos os africanos, porque há muitos brancos entre eles: é perseguição, sim, a atos e palavras que se colocam acima do bem e do mal (em nome de um deus) para saquear o bolso e a bolsa dos crentes, dos que procuram nessas "seitas" palavras de apoio moral e "espiritual" para males reais ou imaginários, e que são descaradamente enganados por uma pregação salvacionista. É perseguição, sim, contra gente que destila preconceito e ódio e incita à exclusão, ao ódio e ao preconceito, para ganhar dinheiro com isso.

Por isso, toda e qualquer manifestação contra esse tipo de gente é até muito leve, em proporção ao mal que causam: esses pastores de igrejolas caça-níqueis que se tornam milionários e poderosos à custa da ignorância e da credulidade do povo deviam, mesmo, é ser investigados, processados, julgados  e colocados na cadeia.

São todos estelionatários de deus.

domingo, 7 de abril de 2013

SISTEMAS ÉTICOS








Já disse e repito mil vezes, se preciso for: sistemas éticos e de convivência humana nada têm a ver com religião. A religião pretende ser uma ponte entre os homens e uma pretensa divindade, inventada para acalmar ou dar falsas esperanças ao desespero humano, quando não compreende a vida em sua plenitude material. Já os sistemas éticos têm a ver com a relação do homem com ele mesmo, na convivência dos diferentes, no estabelecimento do respeito à vida, ao outro e à natureza, na busca da compreensão da vida que temos, palpável, material, sem metafísicas, sem invenções místicas, sem cultos a um deus ou a deuses.

Os sistemas éticos sobrepõem-se, portanto, à aceitação de divindades ou a quaisquer cultos inventados pelo homem. E há sistemas éticos em todas as religiões, com maior ou menor importância, já que a maioria das religiões, ao estabelecerem seus sistemas éticos o fazem com o viés da espiritualidade e sob os auspícios do deus, o que os tornam restritos, incompletos, cheios de inverdades ou com doutrinas anti-humanas, como a aceitação da lei do olho por olho e do dente por dente, da maioria de seus códigos, ou da discriminação social de camadas da própria sociedade, por impuras, ou, ainda, a suprema irresponsabilidade - que os torna de forma absoluta anti-humanos -, a exclusão de todos aqueles que não seguem os dogmas do deus, do seu deus, exprobrando-os e jogando-os no amplo espectro de seres malditos e condenados.

Dentre os centenas, talvez milhares, de códigos de éticas ligados ou não ao deísmo, há um que chama minha atenção e até já me dediquei a ele en passant - e retorno agora, ainda sem um grande aprofundamento: refiro-me ao código de ética do budismo.

Sem dúvida, nele há elementos sedutores, como o seu profundo humanismo, a pregação do respeito à vida, ao outro e à natureza e, principalmente, a moderação, ou ponderação, que leva naturalmente a uma perspectiva de busca da compreensão e do conhecimento. É, de certa forma, admirável o budismo em seus princípios. Há, porém, um senão, um grande senão: a apropriação da filosofia desse belo código de ética por uma casta estruturada de sacerdotes. Ou seja, a partir do momento em que se erigem conventos e comunidades budistas, segregadas de outras comunidades humanas, dominadas por um bando de indivíduos que se dizem os donos ou herdeiros do conhecimento do fundador, Buda, sua credibilidade decresce na mesma proporção que outras seitas.

Esclareço: quando um sistema ético se instrumentaliza em elementos externos, como cerimônias, cânticos e trajes, ele se perde nas entranhas do sistema burocrático e do exclusivismo típicos de seitas deístas que têm por objetivo manter uma nomenklatura (no pior sentido possível do termo) superior aos demais e vivendo da exploração de seus seguidores. Renego, com todas as minhas forças, qualquer sistema ético que se subordine a cultos ou cerimônias, que seja apropriado por indivíduos que se julgam donos desse saber, sejam eles chamados de padres, pastores, mestres, gurus, aiatolás, rabinos, pajés, pais de santos ou quaisquer outros nomes que a imaginação humana venha a inventar, para ludibriar os demais e se tornarem - esses indivíduos - os superiores e orientadores da plebe inculta, os seguidores abestalhados como rebanho, como gado.

Admiro, sim, e reitero isso, em sua maioria, os princípios do código de ética budista, mas repilo veementemente o budismo instrumentalizado e imbecilizado por sacerdotes e simpatizantes idiotizados a cantar e dançar pelas ruas das cidades do mundo inteiro. Isso é uma estupenda bobagem, como são uma estupenda bobagem todos os cultos de todas as religiões. Ou alguém seria estúpido o suficiente para fundar ou seguir uma religião com cultos e altares e danças e sacerdotes que tivesse como base  as ideias de um determinado filósofo e como seu profeta supremo esse mesmo filósofo, entronizado como semideus, por exemplo Nietzsche?

Pode haver, é claro, escolas ou até mesmo associações que busquem estudar e difundir um determinado sistema ético, mas sem que isso seja apropriado por quem quer que seja, em termos de culto ou, principalmente, de hierarquia, que não seja apenas a hierarquia do conhecimento, quando um indivíduo que mais estudou e aprofundou esse conhecimento ajuda (eu disse "ajuda") aos demais no descobrimento e entendimento desse conjunto filosófico.

Enfim, pode-se seguir um sistema ético ou adotar alguns princípios éticos de qualquer religião ou seita, desde que não se aceite sua instrumentalização por qualquer tipo de casta hierarquizada. Quando isso acontece, a deturpação e, portanto, a deterioração desse sistema torna-se inevitável, sujeito a cair - e isso geralmente acontece - na bestialidade e estupidez da seita.




terça-feira, 19 de março de 2013

SER ATEU




Ndeveni - afrikan painter



Já abordei esse tema. Não importa. Há sempre alguma ideia a acrescentar. Há sempre um novo pensamento ou uma nova abordagem.

E não me cobre coerência. Cobre-me evolução. Evolução não no sentido de melhoria, que nunca essa palavra teve, mas no sentido de mudança. De aprofundamento ou de busca de um novo rumo para a mesma ideia.

Ser ateu não é dizer "eu não creio em deus ou em deuses". Porque aquele que isso afirma não é ateu convicto, mas apenas um indivíduo que não possui a crença em algo que pode ou não existir. É o que, no senso comum, se chama de agnóstico. A existência de deus ou deuses é-lhe indiferente. Se eles - deus ou os deuses - não fazem parte de suas convicções, isso não o torna um "inimigo" da crença. Apenas um observador desconfiado.

Ser ateu é dizer: "nego a existência de deus ou de deuses". E mais: "nego qualquer filosofia baseada na metafísica". Nada há além do que a vida e o mundo nos oferecem, em termos de realidade.

O verdadeiro ateu, quando indagado sobre suas "crenças" - sim, porque as pessoas acham que devemos substituir uma crença por outra: se você não crê em deus, em que você crê? - não diz, por exemplo: "eu creio na vida". Porque a vida não está aí para você crer ou não nela. Ela simplesmente está. Não depende de sua crença.

Também não deve dizer: "creio na ciência". Ciência não objeto de crença. Ciência é apenas um instrumento de compreensão da realidade. Pode acertar ou errar. Mas não depende de crenças, nem de nenhum culto, nem que se acredite nela. Não se cultua a ciência, faz-se ciência, estuda-se ciência ou o que dela resulta. Porque, principalmente, a ciência nasce da dúvida e, depois, da observação e, mais adiante, do experimento. E só.

Ser ateu não é substituir uma crença por uma não-crença. Ser ateu é ter o pensamento liberto da estupidez de crenças que entulham nosso cérebro e o direcionam para uma vida de escravo. Todo crente  é escravo das ideias, das coisas e das estruturas de pensamento nas quais ele crê e rende culto e perde tempo precioso de vida para alimentar essa crença. Porque a ideia de crença implica necessariamente a ideia de buscar sempre justificativa junto ao objeto da crença para a sua existência.

A não-crença como oposição à crença também é uma estrutura de raciocínio ou de pensamento que entulha nossas ideias e perturba nosso viver. O não-crente precisa estar sempre justificando sua não-crença, em termos ontológicos.

Outra cobrança aos ateus: por um sistema de ética. Ora, ética nada tem a ver com crenças, com deus ou deuses, com religiões. Ética é conduta humana. Por exemplo: se você gosta de ajudar as pessoas, faça-o, independentemente de ser ateu ou crente. A solidariedade não está para o ateu assim como está para o crente. Há uma questão básica de valores entre as atitudes solidárias do ateu e as atitudes solidárias do crente. E esse valor está em que o crente pratica a solidariedade por aquilo que ela vale para seu deus ou para sua crença. Ao passo que o ateu pratica a solidariedade por aquilo que ela vale em relação à própria vida, para salvar a vida ou garantir a sobrevivência de um semelhante. Nada mais.

Assim, todas as condutas humanas passam pelo crivo de um sistema ético que independe de suas crenças. Cultuar "mandamentos" como se fossem ordens de um deus é tão estúpido quanto a ideia de que vivemos porque algum ser superior nos deu a vida. Principalmente porque esses mandamentos - ou quaisquer outros sistemas éticos baseados em princípios metafísicos ou deístas - nunca impediram que os homens os transgredissem. O ser humano não precisa de freio para viver e respeitar o outro. Precisa apenas - e entenda-se esse "apenas" como a mais profunda ironia que se conheça - civilizar-se.




quarta-feira, 6 de março de 2013

PARA AS RELIGIÕES, TUDO É PERMITIDO







Eu não acredito na inocência das religiões.

Religião é forma de comércio e dominação, nada mais. São instituições cujos dirigentes máximos estão pouco se importando com o povo. Preocupam-se com seu bem estar, com sua condição de domínio de mentes e de carteiras recheadas.

Para dominar,  usam dos mais velhos truques, como inventar milagres, vender o inefável e o invisível como se fossem objetos de consumo, mentir descaradamente para seus adeptos, enganar, implantar falsos silogismos e, sobretudo, manter seus fiéis na mais completa ignorância.

Alimentam o fanatismo e dele fazem as religiões o seu meio de sustento. Utilizam todas as formas de prestidigitação para fazer crer que há um deus que exige fidelidade e, mais do que fidelidade, templos majestosos que consumam dinheiro, muito dinheiro; um deus brutamontes a brandir seu tacape contra os que os contrariam, ou seja, contra todos que não sigam sua cartilha de imposições e doações.

Não há igreja, crença, seita que sobrevivam sem dinheiro. Ele é o motor, a motivação, a causa da existência de milhares líderes religiosos pelo mundo afora, uma hidra de milhões de pernas e braços e bocas ávidas do rico dinheirinho do povo, a absorver a capacidade de pensar e o resultado do trabalho desse povo, sugando sua energia, para torná-lo escravo.

Crer em deus é aceitar uma forma de escravidão, a mais cruel de todas, porque suas correntes não podem ser quebradas por um ato de força, mas pela força da vontade de se libertar, o que é quase impossível, diante do medo que a religião impõe ao seu seguidor, o medo de algo que não existe mas que se materializa com o poder de argumentação dos astutos líderes, através de mentiras repetidas pelos tempos afora, como mantras entorpecedores que impedem qualquer reação. A palavra chave é "fé": a corrente mais cruel a prender a mente das pessoas. Essa palavrinha contém em si a mágica da inatividade: quando ela se impõe, a lógica desaparece.

Quando o indivíduo diz para si mesmo "eu creio", ele está entregando sua capacidade de pensar a seu dono, o líder religioso, e está entregando sua vida, seus bens, sua liberdade. Libertar tal escravo é tarefa gigantesca, quiçá impossível, porque qualquer argumentação, por mais lógica que seja, esbarra na fé inabalável nos meandros perniciosos da metafísica, daquilo que se denomina espiritualidade, algo que não se vê, não se mede, não se pesa, mas que traz em si a estupidez da esperança de uma vida melhor... depois da morte.

O edifício deísta - construído a partir da crença - tornou-se de tal forma complexo, de tal forma um emaranhado de falsos argumentos que se enredam e se completam, que essa teia monstruosa de uma aranha metafísica cobriu e enegreceu a mente humana sem qualquer possibilidade de achar o fio da meada para que se possa deslindar todas as mentiras arquitetadas e repetidas ao longo dos milênios.

O ateísmo não tem a menor chance contra a fé. Porque o ateísmo é liberdade e a fé mantém o homem escravo de um deus que ele julga não poder contrariar, sob pena de castigos severos.

Assim, a desconstrução do discurso deísta torna-se uma tarefa inglória, com remotas possibilidades de sucesso, em curto ou, mesmo, em médio prazo. Talvez daqui a alguns milênios, quando a ciência finalmente fizer aquilo que parece impossível - que é provar a inexistência de algo que não existe, um total e absurdo paradoxo - é que a humanidade comece por fim a libertar-se do jugo do deus que ela criou para escravizá-la através da forma mais terrível de escravidão, através da força da dinheiro e do poder sobre as demais pessoas.

Não, não creio na inocência de nenhuma religião, porque, para as religiões, tudo é permitido. E quem o permite são os escravos que elas escravizam.